21/05/16 - 04:47:28

Emprestar não Presta, escreve professor Lacerda Junior (Foto ilustração)

*Lacerda Junior

Pidão e Toinho eram amigos desde crianças, cresceram no mesmo bairro, estudaram na mesma escola e até namoraram a mesma garota. A amizade dos dois era tão forte que Pidão já não conseguia ver as coisas de Toinho como pertencentes à outra pessoa, já as considerava suas também.

Nos tempos de escola Pidão não se envergonhava de pegar com Toinho tudo o que desejava, era bola emprestada, tênis, material escolar e até mesmo material de uso pessoal, como escova de dentes, sabonete, toalha, geralmente levados por Toinho por ocasião das aulas de educação física.

Os dois amigos foram crescendo e Toinho se incomodava cada vez mais com aquela situação, pois sempre que emprestava algo a Pidão o objeto emprestado vinha danificado, sujo, e às vezes nem vinha mais, porém tinha medo de dizer não, temendo que a negação de algo viesse a comprometer a amizade de tantos anos.

O pai de Toinho sempre soube de sua fascinação por carros antigos, e quando o garoto completou 18 anos deu de presente para ele um Chevrolet Chevette vermelho ano 1973, a alegria de Toinho era tão grande que ele nem conseguia acreditar que aquela relíquia era sua, o modelo era igualzinho a um dos carros antigos de uma coleção de miniaturas que ele mantinha desde criança.

Um dia Toinho estava lustrando sua “máquina” quando de repente chegou seu grande amigo Pidão:

– Toinho meu velho! Como vai?

O coração de Toinho começou a bater forte, pois sabia que toda vez que Pidão chegava com aquela empolgação queria pedir algo.

– Tudo bem Pidão! E você?

– Eu tô mais ou menos… sabe o que é meu brother, é que eu consegui chegar naquela menina que mudou pra cá a pouco tempo, e convidei ela pra dá uma voltas, só que cê sabe que eu só tenho aquela bike e não vai pegar bem, ai eu pensei se……. Dá pra me emprestar seu carro hoje à noite? Amanhã cedinho te devolvo.

O coração de Toinho bateu mais forte ainda, sua vontade era dizer não, mas aquele medo de perder a amizade o oprimiu novamente e ele respondeu:

– Tudo bem! Pode pegar – Falou Toinho com voz trêmula

Pidão não perdeu tempo, pegou a chave, entrou no chevettão e foi embora. Toinho guardou os objetos que ele estava utilizando, foi para dentro de sua casa e logo depois deitou-se e foi dormir. As 03:00h da madrugada alguém tocou a campainha da casa de Toinho, ele acordou meio desnorteado e percebeu que a luz de um giroflex refletia em sua janela, ao abrir a porta se deparou com dois policiais da companhia de trânsito que confirmaram seu nome e perguntaram se ele era proprietário de um veículo Chevette ano 73 vermelho.

– Sou sim! O que aconteceu? – Perguntou Toinho

– Seu veículo se envolveu em um acidente de trânsito, colidiu frontalmente com um poste, a garota que estava no banco do passageiro morreu e o motorista se evadiu do local. – Respondeu um dos policiais.

– Hein!! – Exclamou Toinho assustado

– Além disso observamos que no interior do veículo haviam várias latas de cerveja. Como o veículo é de sua propriedade necessitamos que você nos acompanhe até a delegacia.  – Complementou o policial

Toinho foi levado algemado até a delegacia e após prestar esclarecimentos, foi liberado e respondeu em liberdade, porém ao final do processo foi condenado a prestar serviços sociais, teve a habilitação cassada e seu “chevette dos sonhos” foi removido ao galpão da companhia de trânsito, já que não teve dinheiro para liberá-lo.

Toda vez que Toinho olhava para um carro antigo lembrava de seu chevettão e se arrependia por não ter tido coragem de dizer NÃO, ao final ficou sem o carrão, sem habilitação e sem o amigão, que nunca mais voltou nem para dar satisfação.

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O texto acima é apenas um conto, mas queremos chamar à reflexão um assunto importante, segundo as estatísticas, na maior parte das ocorrências de trânsito o condutor do veículo não é o proprietário.

Devemos ter o máximo de cuidado ao ceder um veículo a terceiros, pois qualquer incidente ocorrido com o mesmo será atribuída à responsabilidade ao proprietário legal, ainda que o proprietário não seja o condutor no momento do incidente.

*Lacerda Junior – Jornalista, professor e entusiasta da integração Trânsito-Escola