31/05/16 - 14:55:19

Esta é mais uma entrevista com Felipe Melo. Mas não se trata de polêmica, fatos ligados ao futebol, seleção brasileira ou transferência

Esta é mais uma entrevista com Felipe Melo. Mas não se trata de polêmica, fatos ligados ao futebol, seleção brasileira ou transferência do Internazionale. O volante, conhecido dentro dos gramados como Pitbull, abriu as portas de um escritório que tem com os sócios no Rio de Janeiro, durante suas férias, apresentou uma outra face, de empresário, mostrou disposição para investir e preparação para o pós-futebol. Um período que ele já avisa que não vai sofrer, pelo contrário, vai aproveitar. Revela seu lado emotivo, engasga na voz e fica com os olhos cheios de lágrimas ao lembrar o que o faz chorar. E aponta como e quando começou a pensar em entrar de corpo inteiro dentro de um terno para se tornar um homem de negócios.

Entre as questões abordadas com o volante do Inter, ele explica como consegue acompanhar de perto seus negócios. Felipe Melo tem participação em uma franquia de uma fábrica de bolos, em uma empresa que leva jovens para estudar e jogar em universidades nos Estados Unidos, e também na FloatBall, uma espécia de barco em forma de bola de futebol que circula por lagos em parques e cidades. Sempre ligado no 220v, ele mesmo afirma que não pode “ficar parado”. Durante a entrevista, em vários momentos, fez perguntas aos sócios sobre reuniões e agenda.

– Na verdade, como tudo na vida a gente tem que estar preparado. Tem sempre que se preparar para o amanhã. Foi assim que me preparei para me tornar um jogador de futebol, toda aquela preparação quando ainda era adolescente, criança e até meu primeiro contrato. Até me tornar realmente um jogador de futebol. E a partir daí, há anos, a gente começou a pensar no pós-futebol. A vida do atleta, do jogador de futebol, dentro do futebol, é muito curta. Com 35, 38, no máximo 40 anos que você vê alguns jogadores jogando e já acaba. Então, aí começou essa ideia de pensar no que fazer no meu pós-futebol. O que eu vou fazer depois que parar de jogar bola? Estou muito feliz, com minha família, e a gente está bem preparado – afirmou Felipe Melo.

GloboEsporte.com: Quem foi o maior incentivador para você preparar a sua carreira depois de pendurar as chuteiras?

Felipe Melo: Eu cresci em uma família onde tudo era planejado. Então, tenho como espelho meus pais. São pessoas que têm planejamento em tudo, e eles que colocaram essa situação na minha cabeça, para pensar no que fazer depois do futebol. Primeiramente, dentro da minha casa eu e minha esposa somos um só e conversamos sobre todos os dias pensando nisso aí, porque é uma coisa muito importante. Para nós, que temos quatro filhos, fazemos por nós e por eles.

E quais são os negócios que você tem? Quais são os segmentos?

– Entre alguns (negócios) que eu tenho, vou citar a Next Level, que é uma empresa que entrei já tem um ano. A gente tinha uma ideia que seria uma bomba, e graças a Deus eu errei, porque é mais do que uma bomba. A Next Level está realmente indo de vento e popa, é uma empresa que nossos sócios trabalham muito e têm sangue nos olhos. São pessoas de um caráter e responsabilidade profissional muito grande e está crescendo muito. Tem o próprio bolo da vovó (Bolo Vó Alzira, franquia de fábrica de bolos), que entrei agora com meu querido Márcio. Um cara que apresentou o projeto, uma coisa maravilhosa. Eu fico falando e fico com vontade de comer o bolo (risos). Porque realmente é muito bom. Um grande amigo meu me ensinou uma coisa uma vez que é a mais pura verdade. Ele falou: “Felipe, você sonhe sonhos com quem sonhe com você”. E se o Márcio me apresentou esse projeto, de abrir essa franquia no Rio, estamos sonhando esse sonho juntos e está dando certo.

Você citou a Next Level, uma empresa trabalha com intercâmbio de jovens. Como funciona e quais são os objetivos?

– A Next prepara os jogadores. A gente tem uma preparação de atletas, com curso de inglês. E os atletas que sobressaem têm vaga em universidade dos Estados Unidos, as melhores. Enfim, depende dos atletas. Mas a gente prepara realmente o atleta para a vida profissional, e procuramos também preparar e ajudar no caráter, formar grandes homens. Porque isso é o mais importante. É uma empresa importante que une o sonho de ser o jogador de futebol com estudar também. Porque hoje em dia, vai lado a lado essa situação. A escola, o estudo, o ensino com o sonho de ser jogador de futebol. Então a gente procura realmente passar isso para os atletas.

E sobre uma empresa de barcos em forma bolas aquáticas que já até passou pela Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, como funciona? 

FloatBall Felipe Melo (Foto: Divulgação)FloatBall já passou pelo Rio de Janeiro (Foto: Divulgação)

– Eu tenho a FloatBall, que estava rodando na Lagoa Rodrigo de Freitas. Agora fechamos contrato com a Angry Birds, somos a primeira empresa a fechar contrato com a Angry Birds. A gente roda a bola, e dentro da bola passa um filme em 3D, e esse filme fala de toda a história, desenho… E isso para criança é muito importante. Enfim, tem crescido muito. Você entra dentro de uma bola e é como um barco. Dependendo do parque que estiver nos Estados Unidos, você faz um safári pela água assistindo um filminho, um desenho. É climatizado, enfim. É muito interessante.

Com uma parceria tão importante como a que você citou, quais são seus planos para essa empresa?

– A ideia nossa, agora, é expandir nos Estados Unidos. Um dos nossos sócios está rodando nos EUA, eu tenho um irmão, Nicolas, que mora lá há dois anos. É um gerente meu, que confio muito. Então, a ideia é expandir por lá. Tenho conversado com um parque em Londres, que é gigantesco. Enfim, nossa ideia é ir para os Estados Unidos, mas também começando a conversar na Europa.

Sobre a fábrica de bolos, você disse que fica com vontade de comer quando fala. E comeu muito antes de assinar o contrato e participar da empresa?

– Mais ou menos umas oito vezes, isso em dois dias (risos). Mas é difícil, porque quando conheci o projeto estava em atividade. Fica complicado comer, comer e comer. Eu fiquei maravilhado, porque realmente é gostoso.

Felipe Melo (Foto: André Durão)Servidos? Felipe Melo não perde a oportunidade de saborear um pedaço de bolo durante as férias (Foto: André Durão)

Qual é o seu sabor preferido?

– Olha, tem tudo que você possa imaginar. Todos os sabores que você imaginar, tem. Mas esse aqui, realmente eu fiz questão de pedir o de nozes. Nozes com leite condensado é uma coisa maravilhosa.

Dono de uma franquia de bolos que é sucesso no Rio de Janeiro, você já aprendeu alguma receita?

Felipe Melo (Foto: André Durão)Roberta, esposa de Felipe Melo, ganha um pedaço de bolo de chocolate na boca (Foto: André Durão)

– Ainda não aprendi a fazer bolo, isso aí é para minha esposa (risos), ela é que tem fazer para mim. Quando não estou treinando e jogando, estou jogando videogame, brincando com as crianças. São quatro filhos, as crianças lá de casa gostam de esporte. Então, quando estou em casa e não estou trabalhando, vou no hip hop com minha filha, no jiu-jitsu com meu filho, com meu filho treinando futebol, é outro que vai para o tênis, enfim…

Você ainda tem uma loja online, que leiloa produtos relacionados ao futebol e tem um cunho beneficente…

– Temos o Bazar Sports, que é muito importante. Tem um ano que construímos essa empresa, a gente leiloa camisas. É muito legal, porque às vezes alguém quer comprar uma camisa do Neymar, que hoje é o maior nome do Brasil. E a gente consegue uma camisa do Neymar e está leiloando ali, e parte do que a gente ganha dá para fundos, por exemplo, para a APAE. Eu escolho para aonde vai uma parte do dinheiro, então posso mandar para casa, ah inventa, Casa da Maria, do João, porque tem crianças ali passando fome.

Já são vários negócios, Felipe. Vai parar por aí, ou tem mais?

– Nós temos em mente um projeto, que estávamos conversando agora há pouco. Que é um projeto de abrir um hotel Spa na Toscana (Itália). É uma fábrica que existe ali, aproveitaremos 70% da fábrica. E com Spa para cachorro, porque na Itália, principalmente naquela zona ali, as pessoas gostam de animais. Vamos abrir daqui a dois anos esse hotelzinho, que está a 20 minutos de uma estação de Ski de nome da Itália. Você está a 40 minuto de carro de Turim, uma hora de Milão. Enfim, é uma zona muito bacana e acho que vai dar jogo este hotel.

Com tantos negócios, e ainda com sua atividade profissional intensa no futebol, como você consegue acompanhar suas empresas morando na Itália?

– Hoje em dia a tecnologia facilita muito. Por exemplo, essa situação dos bolos. Cada R$ 1 que entra, eu vejo pelo aplicativo no telefone. O que é importante, tenho aplicativo que vejo o que acontece. Nós temos câmeras, independente se estou dirigindo o carro ou não, se estou em casa ou não. Se a gente quer ver a loja, ao vivo, quando eu não posso minha esposa faz isso. Porque ela está dentro dessa situação também. E meus pais também, que é o cara que me representa no Brasil e está sempre à minha disposição.

E como você conhece esses projetos, fica sócio nessas empresas? Quem te apresenta esses projetos?

– Tenho pessoas que me ajudam em todo esse processo, de escolha. Primeiro, a gente sempre ora. Eu e minha esposa pedimos a Deus discernimento do que fazer. E quando a gente sente no coração aquela paz, a gente faz. Se ficamos um pouquinho incomodados, não fazemos. O bolo foi legal, porque o Márcio e o Marcelo me passaram essa ideia. Nós oramos, conversamos e achei muito interessante. Porque já é uma realidade no Brasil, número um no Brasil. E ele me apresentou um projeto não de uma franquia normal, mas a maior franquia. Essa loja não é uma lojinha pequena, qualquer. É somente a maior loja do Rio de Janeiro. Então, eu fiquei muito interessado nessa situação. Confio muito no Márcio, que é o cara que me apresentou, é fora de série. E o céu é o limite. A ideia é expandir, daqui a pouco estar em Miami. E esse é somente o primeiro passo.

Felipe Melo (Foto: André Durão)Sem tempo para muita brincadeira, jogador diz que trata com seriedade os seus negócios (Foto: André Durão)

Como é o “patrão” Felipe Melo?

– Sou muito profissional em tudo que faço. Uma das maiores virtudes que tenho é ser muito profissional. E sei diferenciar o profissional da amizade. Tem pessoas da mais alta confiança que trabalham comigo, mas que se der mole tem que tomar uma chegada. Até porque, no meu trabalho, se tiver que chegar às 11h, chego às 10h. Sabe? Justamente para não ter problema. Então nunca tive nenhum tipo de problema, atraso. Sou muito profissional. Para trabalhar comigo tem que ser profissional. Inclusive, agora vou sair daqui e entrar em uma reunião na qual tenho que puxar a orelha de um jovem que demos uma oportunidade para trabalhar. Mas com respeito, porque a gente tem que respeitar o ser humano. Mas tem que ser chamado a atenção, porque tem que ter sangue nos olhos. Só dessa maneira que a gente chega lá.

Como empresário, você já tem algumas empresas estabelecidas que podem te dar um bom suporte no pós-futebol. Mas você não imagina uma vida dentro do esporte, como diretor, treinador ou empresário quando pendurar as chuteiras?

– Acho que é o seguinte. Na vida é tudo fase. Tive a fase adolescente, criança, adulto. E tudo passa, não tem jeito. Eu aproveito o máximo que posso dentro do futebol, trinando… Uma vez o Mancini (técnico do Inter), em um dos nossos treinos, e estávamos treinando mal e ele parou e disse: “Gente, você hoje está treinando assim, legal. Mas amanhã, você vai parar de jogar e vai pensar que podia treinar melhor, fazer melhor. E você vai se arrepender, querer voltar atrás e não pode voltar atrás”. Eu não, quando parar de jogar futebol vou sentir saudades. Porque saudade existe. Mas vou bater minha pelada com os amigos, mas são fases. Vai passar. Não é que eu vá morrer não. Eu amo o que eu faço, e faço o meu melhor. Vou lembrar, ter saudade, e nada mais do que isso. Hoje vejo uma carência no futebol de pessoas que enxergam o futebol, que conheçam o futebol. Tem muita gente que trabalha no futebol hoje, que não conhece. E falta um pouquinho dessa situação. Vejo clubes como Benfica, Porto e Shakhtar. São clube que estão ganhando muito dinheiro com venda de jogadores. Porque têm pessoas inteligentes que conhecem o futebol, que compram jogadores aqui por € 1 milhão e vende jogador por € 30 e 40 milhões. Se você pegar o Benfica e o Porto e ver as últimas vendas, é David Luiz, Ramires, isso que vem na cabeça. Fora outros. Jackson Martínez, Falcao García, James Rodríguez. Ou seja, você vai colocar mais de € 400, 500 milhões que ganharam lá. O Shakhtar aí. Ninguém sabia quem era Douglas Costa, Willian, todo mundo vendido. Um joga no Chelsea, outro no Bayern de Munique. O outro menino agora (Alex Teixeira) que foi para a China por um caminhão de dinheiro. Falta esse olhar clínico das pessoas do futebol. E acho que tenho essa situação de acompanhar, saber. Me vejo parando e tendo um cargo dentro do futebol, sim.

Você conversa com outros jogadores sobre o pós-futebol? Tem algum deles como exemplo?

– Depende muito da idade. Tudo é fase. Tive minha fase dos 20, 21 anos, que eu realmente não pensava nessa situação de parar, guardar dinheiro, segurar. Pelo contrário, era um cara que ganhava R$ 100 e gastava R$ 200. É por isso que eu digo que a estrutura familiar… Primeiramente Deus, mas a estrutura familiar é realmente muito importante. Quando conheci minha esposa, me casei e construímos nossa família, foi aí que começamos a construir o que temos hoje. Nossa base e estrutura. Vejo alguns jogadores de certa idade, como o Palácio que já tem 36 anos, o próprio Buffon quando eu estava no Juventus e tinha idade avançada, são pessoas que se preparam e já têm várias coisas. E que quando largarem o futebol, têm o que fazer. Próprio Del Piero, tive uma conversa com ele e estava se preparando para o pós-futebol: “Vou comentar o futebol aqui, ali. Tenho uma coisa que vou para o Canadá”. Ou seja, as pessoas hoje têm realmente inteligência. Os jogadores que têm inteligência e uma estrutura, realmente têm o que fazer. Não sou diferente, penso nisso todos os dias, porque é difícil ficar parado. Hoje, sou um cara que tem uma situação econômica bem resolvida. Mas, tenho sonhos e objetivos. Se tenho um, quero dois. Se tenho dois, quero ter quatro. Se tenho quatro, quero ter oito. E assim por diante.

Você falou em alguns momentos durante a entrevista o nome Estados Unidos. Pensa em viver lá quando se aposentar?

– Estou decidindo aonde vou morar ainda, porque tenho uma casa em Orlando um apartamento em Miami. A família da minha esposa, quase toda, já mora nos Estados Unidos, meu irmão já mora lá, minha irmã está indo morar lá também. Então, para a minha família eu acho que é muito importante, apesar de amar meu Rio de Janeiro. Então, com certeza vou morar nos EUA. Ou em Orlando, ou em Miami.

Não há a possibilidade de seguir os passos de outros jogadores e atuar nos EUA antes de parar?

– Eu tenho ainda dois anos de contrato com o Inter, estou feliz ali. É difícil imaginar o futuro longe dali. Eu vivo muito o hoje. Hoje minha realidade é o Inter de Milão. No futuro não sei se volto para o Brasil, se vou para Turquia, China, Irã… Difícil.

Com 32 anos, preparando sua vida para a aposentadoria do futebol, as notícias polêmicas envolvendo seu nome ainda tiram seu sono?

– Em casa, antigamente minha mãe absorvia muito as críticas abusivas. As críticas que magoam. Hoje em dia, não. Ela sabe lidar com isso, assim como eu também. Cheguei num patamar de que as pessoas falam, mas quem fala não conseguiu chegar nem na metade do caminho do que eu percorri. Então, por que dar importância para isso? Quando são críticas construtivas, realmente eu acho importante. Tenho isso em casa. Meu pai me liga: “Pô, cara. Tem que melhorar nisso aqui”. Não só no futebol, digo na vida.  E sou um cara que escuto muito. Tem que saber escutar. O que meu pai fala, minha esposa fala, meus amigos falam. Acho que isso é muito importante. E sobre críticas, acho que hoje já sei lidar. Eu tenho 32 anos, já tenho uma vida importante, construí uma carreira importante. Sou bocudo, quando falo alguma coisa que as pessoas não gostam sou muito direto e claro. Não fico mandando recadinho, piadinha. Acho que é isso aí mesmo, futebol não tem que ser “mê mê mê”. Aquilo que você faz, tem que ser muito direto. Sou muito direto, doa a quem doer. Quem não gostar, que compre o bolo da vovó.

Existe algo que faz você chorar?

– Chorar… Ah, um eu te amo do meu filho, da minha filha. Um carinho inesperado… Isso me faz chorar.

Felipe Melo (Foto: André Durão)Felipe Melo, que é chamado de Pitbull, chora ao falar do amor que sente pelos filhos (Foto: André Durão)

Para encerrar, pode falar o que você quiser, sobre qualquer assunto. Solta o verbo, Felipe!

–  Na realidade, fiquei feliz com a queda da atual presidente. Espero que no futuro próximo, o Brasil possa voltar a ser o Brasil que a gente quer, sonha. Que é um Brasil de paz, alegre. Eu cresci num Brasil alegre, com paz. Hoje em dia, é difícil você andar na rua com seus filhos. Enfim, agradeço muito a Deus pela minha família, meu país, o povo brasileiro. Conheço vários lugares no mundo, e igual ao povo brasileiro não existe. Não existe um povo tão carismático e que está sempre disposto a ajudar. É por isso que eu oro todo dia, para que Deus possa abençoar nossa nação.

Fonte: globo.com