20/07/17 - 13:01:32

Futuro Governo deve deixar mesmice, ousar e recuperar o Estado

Em entrevista ao Faxaju On-line, o senador Antônio Carlos Valadares (PSB) traça uma linha de como terá que agir o próximo governador a ser eleito em 2018, para atender às necessidades do Estado e buscar o melhor modelo para efetuar as mudanças que se fazem necessária nesse momento.

– Penso que essa mudança não deve se basear no personalismo, ou numa simples substituição de um nome ou de um grupo político por outro, nem no populismo demagógico com a cara falsa de socialismo e democracia, mas na existência de um novo projeto que gere confiança.

Valadares fala sobre perspectivas para os próximos anos e trata do modelo político que defende para o País. Não revela candidaturas e dá receitas para que se faça um Governo voltado à solução de tudo que afeta o Estado, tanto na política, quanto na economia e na administração como um todo, independentemente de quem seja o eleito.

– Temos que adotar em tempos tão difíceis, uma política séria de planejamento estratégico a dar suporte a um novo projeto de desenvolvimento econômico urgente e viável, em meio à crise que atravessa a maioria dos Estados, sugeriu.

A ENTREVISTA

Senador, como está o grupo da oposição em Sergipe? Coeso e forte?

Senador Valadares – Creio que a oposição tem uma grande chance de vencer as eleições de 2018. Sente-se nas ruas um desejo natural de mudança. As pesquisas estão a confirmar esse sentimento. Porém, temos que ver o que quer realmente a sociedade na disputa do próximo ano. Penso que essa mudança não deve se basear no personalismo, ou numa simples substituição de um nome ou de um grupo político por outro, nem no populismo demagógico com a cara falsa de socialismo e democracia, mas na existência de um novo projeto que gere confiança e consiga formar, senão o consenso,  pelo menos uma consagradora maioria para uma governança responsável e adequada aos novos tempos.

O que proponho, neste momento de descrença generalizada em relação aos políticos, é que discutamos primeiro quais as políticas públicas que deverão constar desse novo projeto, para depois escolhermos os nomes na majoritária e na proporcional que devam assumir compromissos entre si, e com toda a sociedade. Devemos inverter a ordem das escolhas: primeiro, as propostas para Sergipe, e, em segundo lugar, os candidatos que devam se comprometer em levá-las à frente, caso sejam eleitos. Isso para que não sejamos surpreendidos pela população, a qual pode tomar uma direção muito diferente daquela que imaginamos, se ficarmos apegados ao velho costume de lançamentos de candidaturas com suporte eleitoral ou não, discutindo apenas quem agrega mais apoio, mas sem levar em conta conteúdo, mensagem e proposta que possam significar realmente uma mudança de rumos.

No entanto, devo considerar  que  critérios de apoio eleitoral em cada município do interior são objetivos e pragmáticos, e, a priori, não levam em conta a tese que defendo, e, sim, a sobrevivência de cada liderança, apostando primeiro na eleição de um governador que lhe assegure conforto em 2020, ou pelo menos adote um postura de neutralidade no pleito para a prefeitura. Não será fácil acomodar esses interesses. Aí onde reside a oportunidade de o governo abocanhar uma parte descontente com o lançamento deste ou daquele candidato da oposição. Temos, portanto, que ter muita cautela para que não nos distanciemos dessa realidade nos municípios. Todavia, se tivermos uma proposta que consiga envolver e empolgar o eleitorado ela pode mudar e muito essa realidade. De um modo geral, lideranças municipais nunca marcham cegamente contra o povo.

A meu ver, vaidades, possíveis preconceitos, ou projetos pessoais deverão ser afastados, tendo como primeiríssima preocupação, sabermos todos nós como interpretar com precisão aquilo que a sociedade estar a exigir dos candidatos e da postura de seus futuros governantes.

As eleições de 2018 terá o senhor na chapa majoritária para o Governo ou reeleição? Seu nome ao Governo é bem cotado?

Senador Valadares – O meu nome tem sido citado em pesquisas eleitorais assumindo posições favoráveis para governador ou para senador. Uma demonstração de generosidade e reconhecimento com o nosso trabalho no âmbito do Senado Federal. As pesquisas nos motivam a continuar o trabalho tão importante de representar o Estado de Sergipe, sempre pautado na ética e no trabalho. Por outro lado, tendo governado Sergipe só uma vez, e por apenas quatro anos, o povo ainda se lembra [quem sabe, os pais comentam com seus filhos sobre minhas ações e meu trabalho quando passei por lá?], o que muito me honra. Outros nomes de igual modo têm sido lembrados nesses levantamentos no âmbito da oposição como o do senador Eduardo Amorim, para os dois cargos majoritários.

Prefiro, nessa primeira hora, antes da escolha de candidatos, como lhe disse acima, estimular um debate construtivo e esclarecedor sobre como defender um projeto novo e saudável para a economia, geração de empregos e renda, melhoria das condições sociais, e uma relação mais confiável com o funcionalismo público pelo cumprimento rigoroso de um calendário de pagamento da folha. Temos que adotar em tempos tão difíceis, uma política séria de planejamento estratégico a dar suporte a um novo projeto de desenvolvimento econômico urgente e viável, em meio à crise que atravessa a maioria dos Estados.

O que precisa em Sergipe para ser mudado, reestruturado e se tornar um estado forte?

Senador Valadares – O Estado dá sinais mais do que evidentes de que perdeu sua capacidade de investimento. Não mais dispõe de recursos próprios  para obras de infraestrutura, para custear a máquina administrativa cada vez mais emperrada. Não garante o pagamento do servidor em dia, nem tem como segurar demandas cada vez maiores na saúde, na educação e na segurança. Estamos mergulhados numa escala nunca vista, em uma era de verdadeira calamidade pública sem que haja decretação oficial de seu reconhecimento. O próximo governo, que tomará posse no dia 1º de janeiro de 2019, terá que escolher entre fazer a mesmice, chorar com as dificuldade e, de pires na mão, humilhar-se perante o Poder Central do presidente da República, ou ter coragem de empreender um plano ousado de recuperação do Estado, para tentar salvá-lo da completa inanição financeira e econômica.

O futuro governador terá que se comunicar bem com a opinião pública. Para tanto, desde a campanha, para ganhar confiança e credibilidade, não poderá mentir com promessas mirabolantes, portando-se como um homem de Estado, necessariamente como um estadista, procurando convencer a todos, a sociedade e seus aliados de que os tempos são outros, e que não caberá mais concessões nem privilégios inadmissíveis, nem tampouco fechar os olhos, ser indulgente, com atos de corrupção, partam de onde partir. Defendo que o futuro governo terá que se submeter a um ajuste fiscal histórico, pela exigência de ser muito mais severo, como nunca antes aconteceu em qualquer outro período do passado, exigindo o sacrifício daqueles que podem de fato renunciar alguma coisa em benefício geral do Estado, para a redução da injusta desigualdade que teima em permanecer no nosso meio. O governo da União, qualquer que seja ele, não vai querer, nem sequer poderá financiar Estados falidos. O governo atual, por exemplo, está a exigir o descarte de estatais para a obtenção desse benefício com juros subsidiados. E não será diferente no amanhã. Devemos nos preparar para construir a nossa autonomia sem a faca no pescoço do governo da União.

Com escândalos para todos os lados, qual a melhor receita para o País entrar no rumo certo e recuperar a credibilidade perdida?

Senador Valadares – Observando bem, os escândalos políticos aparecem no Brasil, durante, ou logo após os períodos eleitorais, sempre envolvendo a questão do financiamento de campanhas. Mas não tenho certeza de que resolvendo essa questão, a do financiamento, estejamos, de uma vez por todas, livres de novos escândalos e de crises políticas tão graves como as que o Brasil tem sido acossado desde há alguns anos. Penso que temos que ter um olhar mais distante para a debelação ou contenção de crises persistentes. Apoio abertamente no Senado o financiamento público das campanhas eleitorais, redução de partidos políticos com a aprovação da cláusula de barreira ou de desempenho, e proibição da aliança para deputados e vereadores. O distritão que estão querendo aprovar na Câmara, visando o retorno da maioria dos atuais deputados é um escárnio contra a democracia, é um atentado contra o sistema independente de partidos políticos. Querem reintroduzir o sistema de eleições da época do Império. Essa Câmara nada quer mudar, pra tudo ficar do mesmo jeito das eleições passadas. Novos escândalos virão.

Qual o melhor modelo para uma reforma política que seja igual para todos os partidos e candidatos?

Senador Valadares – Além do modelo eleitoral desenhado acima, defendo, para a estabilidade da política no Brasil, um novo sistema de governo voltado para o semipresidencialismo ou semiparlamentarismo, semelhante ao da França ou ao de Portugal. Em caso de crise extrema, ao invés das saídas adotadas pelo presidencialismo puro, no sistema parlamentarista o governo seria destituído e outro assumiria de imediato, proporcionando a distensão requerida que, no nosso regime, só conseguimos com o impeachment do presidente, um processo doloroso, traumático e demorado que divide a Nação.

Apresentei proposta nesse sentido já com parecer favorável na CCJ, cuja PEC foi assinada por mais de 40 senadores. Criação do regime semiparlamentarista com eleição direta para o presidente da República.