24/04/19 - 16:28:53

Se a Petrobras não serve ao Brasil, ela não serve para o Brasil, diz Laércio

Essencialmente agrícola, país não produzir fertilizante pode ser um erro estratégico enorme

Por Laércio Oliveira

Vou aproveitar uma data recente – 19 de abril – para prestar uma justa homenagem ao Rei Roberto Carlos por seu aniversário. A música “Você não serve pra mim” será a base para a demonstração da tristeza de alguém que, como eu, acreditava nos enormes investimentos que o povo brasileiro fez numa companhia que deveria servir para promover o orgulho nacional.

O Brasil é um país com sua economia baseada no agronegócio sendo, portanto, profundamente dependente do uso de fertilizantes. Por isso ….

Não fique triste não se zangue

Com tudo o que eu vou lhe falar

Sinto demais, porém agora

Tenho que lhe explicar

É importante observar que entre os maiores consumidores de nutrientes minerais para fertilizantes no mundo, o Brasil ocupa a quarta posição, ficando atrás apenas da China, Índia e Estados Unidos. Apesar disto, destes quatro países, o Brasil é o único que produz menos de 50% dos seus fertilizantes em solo pátrio. Isto se deve não porque os outros países sejam mais eficientes ou tenham um preço de gás natural mais barato. Não, absolutamente. A razão é porque aqueles países reconhecem a natureza estratégica da produção de fertilizantes e não querem ficar dependentes apenas do mercado internacional.

O Brasil é um país essencialmente agrícola e não produzir fertilizante pode ser um erro estratégico enorme. A grande saída de divisas com a importação de fertilizantes para o setor agrícola compromete o equilíbrio da balança comercial e deixa o país vulnerável e totalmente dependente do fertilizante importado.

Eventuais problemas econômicos ou geopolíticos com o fornecimento de fertilizantes, em uma única safra, podem comprometer a produção de grãos em aproximadamente 30%. Se essas adversidades persistirem, será incrementada em  mais 20% a quebra de produção, totalizando aproximadamente 50%.

Outro insumo muito importante é a ureia pecuária, que traz inúmeros benefícios à saúde nutricional dos animais, como, por exemplo, a manutenção de peso para gado de corte e também para matrizes durante a seca.

A ureia fertilizante, com a presença de formol, substância conhecidamente cancerígena e que fatalmente comprometerá a carne e derivados do leite com o risco de câncer, não pode ser usada como substituta da ureia pecuária. No nosso país, este insumo é fabricado exclusivamente nas FAFENs.

O Brasil possui um dos maiores rebanhos do planeta e, associado às características climáticas (especificamente a seca), é o único país que depende da ureia pecuária para manter seu rebanho produtivo. Paralisar as FAFENs é comprometer a produção de proteína animal no país.

Um outro Rei, desta vez o dos bytes, Bill Gates, publicou um artigo interessante declamando sua paixão pelos fertilizantes. Parece que o mundo todo já entendeu, e se convenceu, da importância dos fertilizantes para a economia, para a produção de alimentos, para a saúde da população e para a independência dos países. Agora só falta convencer a Petrobras.

Não quero mais seu amor

Não pense que eu sou ruim

Vou procurar outro alguém

Você não serve pra mim

Uma empresa estatal deve servir ao país, senão qual seria o sentido de se canalizar vultosos recursos públicos para a mesma, quando poderiam estar sendo usados para a construção de escolas, hospitais etc.

É necessário deixar totalmente claro que não estamos defendendo aqui que a empresa opere no vermelho, nem que seja um cabide de empregos, mas uma empresa deste porte deve ser uma indutora da industrialização, e deve dar foco em áreas que sejam vitais para o país.

Mesmo na hipótese de venda, a fábrica deve ser mantida funcionando, já que sua paralisação pode ter graves consequências para o país além de desvalorizar enormemente o ativo.

A Petrobras é um monopólio de fato, e fixa os preços de seus produtos visando apenas o lucro dos acionistas. O gás natural, único insumo usado na fabricação de fertilizantes nitrogenados, tem seu preço fixado pela empresa em um valor muito superior ao custo de produção, inviabilizando com isso diversas outras atividades industriais.

Você comigo não combina

Não adianta nem tentar

Não vejo mais razão nenhuma

Para continuar

Assim, presidente Bolsonaro, não vejo mais nenhuma razão para continuar com uma companhia que serve apenas à bolsa de Nova York, e não tem nenhum compromisso com o Brasil.

Como diria o Rei Roberto Carlos: “Você não serve pra mim”.

*Deputado federal  (PP/SE), presidente da Federação do  Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Sergipe (Fecomércio/SE)