31/05/19 - 19:44:30

A DESUMANIZAÇÃO DA MEDICINA

 

Por Antônio Samarone

Existe um movimento nacional pela humanização da medicina. Essa iniciativa é o reconhecimento óbvio de que a medicina foi desumanizada. Entretanto, não fica claro nem o que é, nem como aconteceu essa desumanização. Nas entrelinhas, parece uma visão ingênua. A desumanização é vista como: desvio pessoal de conduta do médico, voltada para o lucro; postura psicológica inadequada; ou desatenção no relacionamento com a sua clientela.

Os remédios sugeridos para a humanização seriam, a introdução de conteúdos de “humanidades” e de noções de “artes”, nos currículos de medicina. Para o senso comum a medicina é “ciência e arte”, faltar-se-ia o segundo pilar na formação. Arte nessa perspectiva é entendida como música, pintura, teatro e dança. O projeto visa introduzir noções de literatura, arte e filosofia nos currículos de medicina.

Mesmo ausente no projeto a concepção histórica da “medicina como arte” (percepção sensível do sofrimento humano), mesmo assim, tornar os médicos pessoas ilustradas, abertos às artes, a história e a filosofia, tem lá os seus benefícios. Entretanto, pouco afeta ao processo de desumanização em curso.

O caminho apontado é a criação de disciplinas onde os alunos leiam os clássicos da literatura, discutam filosofia e história, assistam a filmes, façam teatro, dançem, ouçam músicas, em suma, recheiem a sua formação com conteúdo de humanidades. Um pouco de erudição cultural. Para relativizar um certo cientificismo, tecnicismo, frieza, reais ou imaginárias.

Onde e como ocorreu essa desumanização da medicina?

Quando a medicina deslocou a atenção ao doente para a doença, ela caminhou para a desumanização. A relação deixou de ser homem/homem, do médico com o doente, para ser homem/objeto, do médico com a doença. A relação médico/paciente virou uma relação médico/doença. A medicina passou a lidar com “casos”.

A medicina artesanal do século XX, exercida predominantemente de forma liberal, estava centrada na relação médico/paciente, no colóquio singular, na livre escolha, na confiança, no segredo, na autonomia do médico. Ela está sendo substituída pela medicina comercial. A clínica perdeu a soberania. O paciente virou consumidor, cliente, usuário.

O segundo passo da desumanização foi o “cuidado” deixar de ser o eixo central do ato médico, de forma que a realização dos procedimentos assumiu a forma principal. A mudança foi mais profunda, pois o médico poderia centrar a sua atenção nas doenças e secundariamente, manter uma relação principal com os doentes. Seria uma desumanização mitigada. O caminho seguido foi outro.

O ato médico foi subdividido em quatro mil e seiscentos procedimentos, conforme a tabela da AMB. Procedimentos classificados em grau de complexidade e realizados de forma independente, por profissionais distintos, no atendimento a um mesmo paciente.

O que induziu a medicina a essas mudanças?

Em meados da segunda metade do Século XX (1980/90), os serviços de assistência à saúde foram incorporados ao mercado, tornando-se uma importante atividade econômica. No Brasil, passou a representar cerca de dez por cento do PIB.

No pós Segunda-Guerra, os medicamentos assumiram a forma de mercadoria industrializada, superando a fase artesanal. Foi o primeiro subsetor do complexo assistencial da saúde a incorporar-se ao mercado capitalista. O remédio é uma mercadoria e assim se comporta. A sua produção é comandada pela lógica do lucro (primazia do valor de troca sobre o valor de uso), produção em larga escala e padronização.

Ao assumir a forma de atividade econômica, surgiu uma grande dificuldade para a assistência à saúde: como transformar os cuidados médicos em mercadorias. A medicina lida com a morte e o sofrimento humano. Como enfrentar a subjetividade do cuidado e a personalização? Cada paciente é uma pessoa em particular, tem a sua história, suas crenças, seus desejos e seus medos. Como padronizar esses cuidados, torná-los impessoais, quantificáveis, produzidos em série, em síntese, torná-los mercadoria?

O trabalho médico na forma de mercadoria se relaciona com as doenças em forma de coisa (“casos”). Uma relação entre pessoas, médico/paciente, se transformou numa relação entre coisas, no conhecido processo de fetichismo da mercadoria. A relação social entre as coisas, tomou o lugar de uma relação entre pessoas. Resumidamente, é a chamada desumanização da medicina.

A economia de mercado produz mercadorias, sem meio termo. Independente do valor de uso, as mercadorias realizam-se na troca, na consumação do lucro. O capital tem as suas leis. Era preciso padronizar o cuidado médico para adequá-lo as exigências do capital.

Foi preciso transformar os cuidados médicos pessoais e subjetivos em frações objetivas, quantificáveis e impessoais. A saída foi a introdução dos protocolos e das diretrizes terapêuticas para a padronização e fragmentação do cuidado médico em procedimentos. Era o esvaziamento da relação médico/paciente e o nascimento de uma relação de consumo.

O médico passou a produzir para o mercado, comandado pelas operadoras dos planos de saúde. O mercado financeiro assumiu um papel dominante na produção de serviços. O complexo médico-industrial se consolidou. Para sobreviverem, os hospitais filantrópicos, familiares, cooperativos se profissionalizaram e assumiram a lógica da produtividade. Mesmo assim, correm o risco de serem incorporados pelas grandes redes internacionais, comandadas pelos fundos de pensões.

A medicina deixou de ser voltada para os pacientes e voltou-se para o mercado. Isso independe do comportamento ou crença de cada médico. Existem nichos de resistência, mas que não alteram a tendência dominante. Em algumas especialidades, por sua natureza holística, essa transformação do cuidado médico em mercadoria é mais penosa. Por exemplo: na geriatria o cuidado com o idoso é por natureza integral.

A transformação econômica do cuidado médico em mercadoria não é aceita pelos médicos, enquanto categoria. Fere a tradição histórica da medicina: o médico era remunerado por honorários. O próprio código de ética condena a mercantilização da medicina.

A transformação do sacerdócio em negócio é dolorosa. Existe um preconceito consolidado de que negócio cheira a ilicitude e a trapaça. Os negócios podem ser decentes, os lucros legítimos e os consumidores conscientes dos seus direitos.

Qual o papel das faculdades de medicina e da formação médica nessas mudanças?

A principal contribuição do ensino nesse aspecto é revestir o ato médico de um viés científico e transformá-lo numa prática supostamente científica. O ato médico enquanto mercadoria, não é aceito Ideologicamente. A medicina voltada para o mercado, passa a ser percebida pelos seus praticantes como uma medicina voltada para a ciência.

Nessa ação de camuflagem cientifica, os cursos de humanidades propostos tanto podem contribuir para o aperfeiçoamento da sublimação ideológica, como, dependendo da abordagem, contribuir para o aprofundamento da resistência ao processo de desumanização. A clareza conceitual sobre o que estamos chamando de desumanização, é etapa decisiva no caminho a ser trilhado.

Em poucas palavras, a desumanização não foi um caminho apenas simbólico ou um desvio pessoal dos médicos. As bases fundantes da desumanização são materiais. Sem enfrentar o desconforto de entender a forma de mercadoria assumida pela prática médica, não chegaremos às raízes da questão.

O assunto é mais complexo e não se esgota nesse texto de problematização. Por exemplo: a desumanização da medicina pública, da assistência do SUS, onde a transformação do cuidado médico em mercadoria não faz sentido. Neste caso, o que levou à desumanização?

No caso brasileiro, a medicina pública assimilou o mesmo modelo assistencial da medicina privada, hegemônica desde o final do Século XX. A medicina suplementar por lei, virou a principal. O Sistema Único de Saúde (SUS) transformou-se num Sistema Único de Doenças (SUD). Mas, cabe aqui, uma discussão à parte.

A humanização da medicina consiste no retorno à medicina voltada para os pacientes e no esforço em manter o “cuidado” como principal característica do ato médico. Os cuidados paliativos podem servir de exemplo ao caminho apontado. É a volta na ênfase da relação médico/paciente. A humanização é o retorno da relação homem/homem, como eixo da prática médica.

A contradição é como realizar esse retorno ao paciente numa medicina de mercado. As novas formas de organização do trabalho médico, guiadas por novas tecnologias, sobretudo no campo da tecnologia da informação (TI), novos aplicativos, automação, robótica, inteligência artificial, evoluem para uma medicina personalizada, dentro do paradigma molecular. Mas aqui já entramos na futurologia.