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Simone Zucato sobre câncer de mama: “Faço quimioterapia oral diariamente”. Atriz lidou com câncer de mama durante gravações de ‘O Sétimo Guardião’

Simone Zucato mudou as prioridades de sua vida após enfrentar um câncer de mama, descoberto em 2017. Ainda em tratamento para que a doença não volte, a atriz conta que aprendeu a não dar tanta importância às situações negativas.

“Quando você se vê numa situação assim, a primeira coisa que você começa a fazer é priorizar as coisas na sua vida. Você consegue ver o que tem importância, o que não tem tanta importância e o que não tem importância. E você percebe que o tempo passa muito rápido e isso reforça a ideia de que não vale a pena passarmos nenhum segundo sequer perdendo tempo com coisas negativas, sentimentos ruins. Viemos a esse mundo para ajudar o próximo e fazer quem está a nossa volta feliz. E acredito que daí vem nossa felicidade. Viemos para facilitar a vida de quem está ao nosso redor, para darmos amor sem esperar nada em troca”, conta a atriz, que durante o tratamento estava no ar em O Sétimo Guardião, novela de Aguinaldo Silva.

“Faço quimioterapia oral diariamente para evitar que a doença volte no futuro. Ainda tenho mais três anos e meio pela frente”, diz, referindo-se ao tratamento feito com medicamentos administrados pela boca, geralmente na forma de comprimido, cápsula ou líquido.

Atualmente em cartaz com o musical Sylvia, Simone, que também produziu e traduziu o espetáculo da Broadway, tem levado uma mensagem de amor e positividade aos palcos. O show fala sobre uma cachorra que muda a vida de um casal em crise após sua entrada para a família.

“Um cachorro sempre muda a nossa vida para melhor quando chega e nos entristece muito quando vai embora. E sim, nos ajuda a passar por momentos difíceis porque são nossa alegria. Você pode estar doente, com questões de trabalho, com problemas num relacionamento, com problemas financeiros… mas tudo passa quando você chega em casa e eles estão te esperando com aquela festa”, explica sobre a escolha do espetáculo, em cartaz até 14 de novembro no Teatro Petrorio das Artes, no Rio de Janeiro.

O que te despertou o desejo de produzir esse espetáculo?
O fato dele falar sobre a importância de se ter um cachorro e também sobre a necessidade de ouvir e entender o que o outro precisa, de respeitar as vontades e as necessidades  de quem amamos.

Qual o maior desafio em ter um espetáculo como este em cartaz?
Atualmente, manter um espetáculo assim em cartaz. Estamos passando por tempos muito difíceis, nos quais as pessoas não saem mais de suas casas para irem ao teatro. Antes vem as contas para pagar e o teatro acaba ficando lá embaixo na lista de prioridades de uma família nos dias de hoje. Então, estou falando da dificuldade em trazer o público para o teatro, das dificuldades que a classe artística vem enfrentando em relação à patrocínio de peças. É muito fácil falar que se tem público quando já se tem um nome forte no mercado – e me refiro a um nome conhecido, que esteja sempre na televisão – assim como também é bem mais fácil conseguir patrocínio de empresas quando se tem esse nome. Mas a grande maioria dos atores não têm isso. A grande maioria dos elencos não tem um nome forte e aí acaba que temos que bancar tudo do próprio bolso, e se você não tem nenhum nome que chame público, por melhor que a peça seja, é muito difícil você lotar teatro hoje em dia. Sylvia tem 34 pessoas na equipe. Estou pagando absolutamente tudo do meu bolso há duas temporadas. Todos tem salário. Eu, em seis meses de trabalho em Sylvia, não ganhei um real sequer. Apenas investi, porque acredito que fazer arte assim é um investimento na cultura do país, é um investimento nas carreiras dos envolvidos e também porque se eu não fizesse, teria que abrir mão de um projeto no qual acredito. Hoje em dia, as peças não conseguem mais ficar muito tempo em cartaz. Nos últimos meses tenho ouvido falar sobre produções que tiveram que encurtar ou cancelar a temporada por falta de condições para manter a peça. Isso é muito, muito triste. O teatro emprega muitas famílias, alimenta o turismo, sem falar da importância da arte e da cultura na educação de um povo.

Recentemente você lidou com um câncer de mama. Como foi essa descoberta?
Foi um grande susto. Não tenho ninguém na família que tenha tido câncer de mama. Então, a princípio foi um grande choque, ainda mais porque recebi o diagnóstico dois dias depois que o Aguinaldo Silva me convidou para estar no elenco de O Sétimo Guardião. Tive que correr contra o tempo para fazer o tratamento e estar bem para a novela. Para a minha sorte, a novela foi adiada e eu consegui fazer o tratamento a tempo. Sem falar da alegria de um trabalho como esses, pelo qual todo ator espera, que me deu esperança, força e me fez passar por todo o processo de cirurgia, radioterapia e quimioterapia com mais tranquilidade.

Você ainda fazia o tratamento enquanto gravava O Sétimo Guardião. Como foi se entregar a um personagem em um momento em que a doença acaba sendo o foco na nossa vida?
Olha, desde a primeira consulta que tive com meu médico, assim que recebi o diagnóstico, eu sabia o que deveria ser feito para realizar o tratamento. Ele me explicou que primeiro eu faria uma cirurgia para a retirada do tumor, e nessa mesma cirurgia faria uma mamoplastia para igualar as mamas, na sequência eu faria 30 ciclos de radioterapia e depois começaria a quimioterapia.  E eu estava muito feliz com o convite do Aguinaldo (Silva). Então a cada etapa que eu conseguia passar, eu pensava que já podia resolver a próxima. Até que acabei as sessões de radioterapia e meu médico me disse que dali para frente teria que fazer quimioterapia oral por cinco anos. A doença deixou de ser o meu foco quando o plano de saúde, através de uma liminar na justiça, liberou minha cirurgia. Eu tinha um outro foco que era esse trabalho. E foi esse foco que me deu esperança, me deu força para seguir adiante.

Fez algum tratamento para impedir a queda dos fios durante o tratamento?
Não, não precisei. Eu fui diagnosticada num estágio muito precoce da doença, e por isso não precisei passar por essa quimioterapia mais agressiva, porém necessária em alguns tipos de câncer de mama.

Já tem projetos após Sylvia?
Ficamos em cartaz até meados de novembro no Rio de Janeiro. Tenho outras produções a caminho, mas além de estar na dependência de conseguir patrocínio para os mesmos, dependo de me chamarem para trabalhar também, pois preciso ser remunerada para pagar minhas contas. A vida de atriz é uma montanha russa. Um dia você tem trabalho, no outro não tem.  Então com Sylvia, rezo para que as pessoas gostem do meu trabalho e me chamem para trabalhar. Seja no cinema, na televisão ou mesmo no teatro. Aí você vai, trabalha, vem e faz teatro de novo.