27/11/19 - 10:46:05

Assédio sexual no meio acadêmico é um dos maiores problemas no Brasil

“Imaginei que se tratava de uma simples cantada, pelo menos no início.  Quando comecei me sentir acuada, ameacei levar o caso à coordenação. Finalmente, as abordagens, cada vez mais agressivas, cessaram. Mas sempre fica um sentimento que me aprisiona. Muitas vezes pensei até em largar meu tão sonhado curso superior”. Esse depoimento é de uma aluna que estuda em uma faculdade em Sergipe e que prefere não ter a identidade revelada. Uma situação que muitas outras pessoas podem ter vivido e nem imaginam que o caso pode ser configurado como assédio.

Para Samyle Oliveira, coordenadora do curso de Direito da Universidade Tiradentes- Unit, campus Propriá, prevenir e lidar com o assédio sexual de mulheres na Instituições de Ensino Superior ainda é um desafio. “Na maioria das vezes, a naturalização de algumas condutas camufladas com aspectos de uma cultura machista faz com que algumas mulheres sintam dificuldade de reconhecer uma atitude como assédio e quando reconhecem, sentem dificuldade de compartilhar, sobretudo, por receio de serem julgadas a partir do reforço de alguns estereótipos”, disse.

De acordo com Valdilene Oliveira Martins, vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Ordem dos Advogados do Brasil – seccional Sergipe, o assédio sexual é muito mais constante na academia do que se imagina. Segundo ela, há relatos de mulheres que abandonaram ou atrasaram seus cursos superiores, mestrados e doutorados por conta de assédio. Casos ainda de professoras, que na condição de alunas de mestrado, foram vítimas de assédio por parte de orientadores, o que acabou inviabilizando a permanência no curso. “Há ainda casos de quando o assédio sexual se torna assédio moral. Numa negativa às investidas, seja expressa ou tácita, aquela pessoa começa a ser perseguida com reflexo nos resultados de trabalhos, baixa atuação em sala de aula. Assédio sexual ou assédio moral configura violência. Quando se fala nessa questão, sem dúvida nenhuma, assédio no meio acadêmico é um dos maiores problemas que nós temos hoje no Brasil, resultado de uma cultura patriarcal”, afirmou.

Embora seja mais comum, pesquisas revelam que, não apenas mulheres podem ser alvo do assédio no meio acadêmico. As vítimas de assédio sexual correm sérios riscos de sofrerem a chamada vitimização secundária e terciária, ou seja, ao invés de receberem o acolhimento e direcionamento, acabam tendo a reprimenda institucional na delegacia, por exemplo, podendo também receber julgamentos pelos familiares e pela sociedade. “Todas essas questões mexem muito com a cognição, afetam psicologicamente o equilíbrio emocional da vítima e consequentemente, podem implicar na impossibilidade de não descobrir, ou não desenvolver, as múltiplas habilidades entendidas como talentos. Por essa razão que o apoio psicológico e social é imprescindível, pois é uma forma de acolher a vítima, minimizar ou cuidar dos impactos do acontecimento”, lembrou a professora Samyle Oliveira.

De acordo com o psicólogo Saulo Almeida, em termos conceituais, o assédio sexual é entendido como toda conduta de natureza sexual não desejada que, embora repelida pela vítima, é continuadamente reiterada, cerceando a liberdade sexual. Na prática, ações como agarrar alguém à força, fechar a porta da sala para ficar a sós com estudante, tocar a pessoa por muito tempo, fazer carícias no corpo ou no cabelo sem permissão ou propor um relacionamento mais íntimo com promessas de ganhos na instituição e fora dela podem constituir assédio sexual.  “Vivenciar tal violência pode levar ao isolamento, maior nível estresse, de ansiedade para atividades do cotidiano acadêmica (estudar, fazer provas, apresentar trabalhos), tornando mais difícil a conclusão do curso, chegando à evasão. E, mesmo após a conclusão, o assediador, que muitas vezes é da mesma área da vítima, pode prejudicar a inserção dessa nova profissional no mercado de trabalho. Vale ressaltar que as vítimas, ao conseguirem relatar os atos de violência continuados, necessitam de suporte psicológico e/ou psiquiátrico a fim de cuidar de quadros como depressão ou transtorno de estresse pós-traumático”, reforçou.

Romper o ciclo de violência não é fácil. O medo de serem retaliadas, marcadas e prejudicadas na sua formação e na sua carreira profissional faz com que as denúncias sejam postergadas ou até descartadas como possibilidade. A denúncia, nesses casos, é fundamental para que ações possam interromper e, a longo prazo, prevenir a ocorrência. “As instituições de ensino superior precisam construir setores competentes para essa função, a fim de acolher a fala e o momento de sofrimento daquela pessoa e tomar providências para que haja investigação e as sanções necessárias. Nesse sentido, a construção de espaços compartilhados para compreender quais são os direitos de cada um são fundamentais para posturas de enfrentamento”, completou Saulo Almeida.

Audiência

Um movimento iniciado ainda em 2017, provocado pelo Coletivo de Mulheres Livres, vem atuando nessa questão nas faculdades e universidade de Sergipe. Um trabalho conjunto com Ministério Público Federal, Ordem dos Advogados do Brasil-seccional Sergipe e instituições de ensino superior instaladas na capital e interior do estado.

Na próxima quarta-feira, das 14h às 17h, no auditório do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Sergipe, campus Nossa Senhora do Socorro/SE, o Ministério Público Federal e a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da OAB/SE realizam mais uma audiência pública para tratar do tema “Assédio Sexual no Meio Acadêmico: Ações Efetivas para a Prevenção e o Enfrentamento”. No evento, aberto ao público, representantes de Instituições de Ensino Superior apresentarão as medidas adotadas e os projetos para prevenção, conscientização e combate ao assédio âmbito universitário. Haverá ainda o lançamento de uma cartilha com orientações sobre como e onde uma vítima pode buscar ajuda.  A audiência pública tem apoio do Coletivo de Mulheres Livres, do Instituto Federal de Sergipe, da Universidade Federal de Sergipe e da Universidade Tiradentes.

Foto assessoria

Por  Amália Roeder