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Carol Dieckmann relembra ‘Laços de Família’: “Não me achava bonita até o dia em que fiquei careca”.No dia 7 de setembro, volta ao ar no Vale a Pena Ver de Novo um grande sucesso dos anos 2000

No dia 7 de setembro, volta ao ar no Vale a Pena Ver de Novo um grande sucesso dos anos 2000: a novelaLaços de Família, que tem como uma de suas protagonistas, a atriz Carolina Dieckmann. No ano que a novela faz 20 anos, a Glamour Brasil bateu um papo com a atriz sobre os bastidores, histórias curiosas e até a famosa cena em que ela raspa o cabelo.

“Até o dia que eu fiquei careca eu não me achava bonita. Eu era pouco vaidosa, fui criada no meio de meninos, nem espelho grande eu tinha. Eu lembro que o primeiro espelho que eu tive na minha vida, que eu comprei para me ver inteira, conferir a roupa, eu comprei na época de Mulheres Apaixonadas, depois da Camila. Quando eu raspei a cabeça, que eu me vi sem cabelos, eu comecei a me achar bonita. Não tinha uma percepção estética sobre mim e quando eu fiquei careca eu percebi que meu rosto ficou muito forte, comecei a me achar interessante. Foi careca que eu comecei a me curtir. É estranho, mas é verdade”, relembrou a atriz.

Ainda durante o papo, Carol relembrou como acabou ganhando o papel de Camila, que vive muitos percalços da trama de Manuel Carlos, de acabar se apaixonando pelo namorado da mãe, Helena (Vera Fischer), até sofrer com uma leucemia agressiva e precisar de um transplante de medula. Na verdade, muita gente não gostava nada das atitudes da jovem na novela.

“As pessoas odiaram a Camila até ela começar a ficar doente. Quando a doença apareceu na trama, as pessoas começaram a pensar que era bem feito, mas ao mesmo tempo sentiam pena. Acho que o público começou a torcer por ela já quando ela estava bem doente, quando precisou raspar a cabeça. Essa é a lembrança que eu tenho, de que esse jogo virou já no finalzinho, quando ela estava entre a vida e a morte. Acho que ali que o público perdoou tudo que ela fez ao longo da história”, opinou.

Assim como pra muita gente, a novela ficou marcada na vida de Carol Dieckmann, que considera a personagem um “rito de passagem” em sua carreira. “Eu era muito jovem e não tinha noção do quanto essa novela e a cena da Camila cortando o cabelo mudariam a minha vida e a minha carreira. Eu tinha acabado de me tornar mãe (de Davi, seu filho com o o ex-marido, o ator Marcos Frota) e estava sedenta por experiências na profissão que me preenchessem, que me dessem a certeza de que era aquilo que eu queria fazer, que eu realmente queria ser atriz dali para frente. A novela ficou gravada para mim como um rito de passagem, uma iniciação, algo muito forte mesmo”, contou.

Carolina ainda falou sobre a relação com o elenco, a honestidade sobre o teste de Reynaldo Gianecchini, e também como ganhou o papel para a trama que mudou sua carreira. Confira como foi o papo completo:

Laços de Família vai voltar, 20 anos depois. Quais suas maiores lembranças dessa época?

Laços de Família é uma novela que me traz lembranças muito boas. Eu gravava muito com a Vera (Fischer) e o (Reynaldo) Gianechini e era uma relação incrível, foi uma troca muito intensa com os dois. Além disso, quando comecei a fazer a novela eu tinha acabado de ter meu primeiro filho, o Davi. Então, foi um momento decisivo, porque eu estava cheia de dúvidas e questionamentos dentro de mim. Foi com a Camila que eu me reconectei com a profissão de maneira muito forte. Foi nessa novela que eu entendi o que era ser uma atriz.

Tem alguma curiosidade sobre as gravações que você pode contar, que ninguém ou pouca gente saiba?

Normalmente, quando gravamos uma novela, esperamos bastante ou repetimos muito uma mesma cena. Mas a lembrança que eu tenho de Laços de Família, que eu acho que é também uma curiosidade, é que havia um aproveitamento do tempo muito grande. Como eu tinha filho pequeno, eu queria que o tempo fora de casa, longe dele, fosse muito bem aproveitado. Eu tinha um desejo de ocupar o meu tempo com atividades que fizessem sentido para mim, pois era a primeira vez que eu trabalhava depois do nascimento do meu filho. Outra coisa que me lembro bem é que eu estudei muito sobre pessoas com câncer. Eu precisava entender mais sobre esse universo.

A novela foi um marco na sua carreira. Você acha que foi a grande virada, que te deu mais visibilidade como atriz?

Foi um marco, sim. Eu era muito jovem e não tinha noção do quanto essa novela e a cena da Camila cortando o cabelo mudariam a minha vida e a minha carreira. Eu tinha acabado de me tornar mãe e estava sedenta por experiências na profissão que me preenchessem, que me dessem a certeza de que era aquilo que eu queria fazer, que eu realmente queria ser atriz dali para frente. A novela ficou gravada para mim como um rito de passagem, uma iniciação, algo muito forte mesmo. E fico feliz que ela não tenha sido forte só para mim.

No seu papo no Altas Horas, você relembrou o tanto que foi odiada pelo público, que chegou até ligar para o Manoel Carlos (autor da trama). Como foi receber esse hate das pessoas naquela época? Quando as pessoas começaram a gostar mais de você, você lembra?

Quando o Maneco me chamou para fazer a novela, ele falou que seria importante que as pessoas tivessem empatia por ela. E, quando eu fui vendo que a Camila estava sendo odiada pelo público, eu realmente liguei para ele, preocupada. E ele me respondeu muito tranquilamente que tinha certeza que, na hora que ela ficasse doente, as pessoas se colocariam no lugar dela e a situação mudaria. E ele é um gênio, tem muita experiência.

E foi isso mesmo, as pessoas odiaram a Camila até ela começar a ficar doente. Quando a doença apareceu na trama, as pessoas começaram a pensar que era bem feito, mas ao mesmo tempo sentiam pena. Acho que o público começou a torcer por ela já quando ela estava bem doente, quando precisou raspar a cabeça. Essa é a lembrança que eu tenho, de que esse jogo virou já no finalzinho, quando ela estava entre a vida e a morte. Acho que ali que o público perdoou tudo que ela fez ao longo da história.

Ainda nesse papo, você relembrou um momento muito íntimo, da perda de um bebê e do Maneco dizendo que ia escrever uma novela para você. Como foi tudo isso? Como foi ganhar esse presente e ao mesmo tempo estar em uma situação tão delicada e dolorida?

A perda do bebê aconteceu no fim das gravações de Por Amor (1998). Na última semana de gravação, o diretor Paulo Ubiratan, que foi meu padrinho de casamento e era uma pessoa muito próxima, morreu. Eu fui ao enterro e, quando cheguei em casa, perdi o bebê. Foi uma semana muito triste e eu ainda tinha que gravar o final da personagem de Por Amor. E era um final muito feliz, a personagem casava e descobria que estava grávida. E eu estava em um momento muito difícil, triste mesmo.

Eu lembro que a Vera Holtz, que fazia minha mãe nessa novela, foi até a minha casa e ligou de lá mesmo para o Maneco para dividir com ele o que estava acontecendo. E ele se prontificou a reescrever as cenas da personagem. E ele falou também nessa ocasião que estava escrevendo um papel para mim na próxima novela.

Naquele momento essa fala dele me pareceu um carinho, algo para me dar esperança. Não levei tão a sério. E aí depois de ter meu primeiro filho, quando estava pensando em voltar ao trabalho, soube que estava reservada para uma novela do Maneco e até estranhei. Logo depois, recebi essa carta, que todos já viram, dizendo que ele não estava somente me oferecendo o papel e sim que tinha escrito a Camila especialmente para mim. E foi um chamado, uma alegria mesmo.

O Gianecchini disse que não acreditou muito que tinha seduzido você no teste para o papel, que você não acreditava nele. Foi isso mesmo? Você lembra?

Não foi uma questão de acreditar. Quando li a sinopse do personagem dele, estava escrito que era um homem moreno, forte, típico gato do Leblon, bronzeado, criado na areia. E eu lembro que criei uma imagem focando no fisic du role do personagem, segundo a sinopse. E quando ele chegou no teste estava super magro, muito branquinho, e eu olhei – sempre fui muito transparente – e perguntei, na dúvida mesmo, se era ele que ia fazer o teste para o Edu.

Não que eu tivesse duvidado do talento dele, eu nunca o tinha visto na vida. A questão é que fui espontânea e demonstrei que não entendi o motivo de ele estar fazendo teste já que na minha imaginação o personagem era totalmente diferente dele fisicamente falando. Eu tinha 20 anos de idade e não entendia nada de escalação.  Eu só fui espontânea.

Carolina Dieckmann e Vera Fischer (Foto: Instagram/Reprodução)
Carolina Dieckmann e Vera Fischer (Foto: Instagram/Reprodução)

Laços de família é uma novela querida pelos brasileiros, é nostálgica pra muita gente. Você acha que se ela estreasse hoje, em 2020, ainda assim faria esse sucesso?

Creio que seria sucesso sim. Eu acho que nas novelas do Maneco todos esses questionamentos sempre foram colocados na situação, e não no olhar do personagem. As coisas eram vistas através da ótica mesmo da situação, que eu acho que é a maneira que a gente deve abordar. E acho que deve ser abordado, porque é sempre válida a discussão. Na minha opinião, a melhor ótica para se escolher é sempre a da situação porque aí você coloca a situação e o público decide do lado de quem ele vai ficar, quem ele vai defender.

Você tem muitas cenas incríveis na trama, mas a que você raspa o cabelo, virou um marco na TV brasileira, nas novelas. Como são suas lembranças da gravação dessa cena?

Ela por si só já diz tudo. Mas eu tenho muitas cenas emblemáticas dessa novela. A anterior à que ela raspa a cabeça, por exemplo. A que ela começa a colocar a mão na cabeça e o cabelo cai, porque a personagem está perdendo os cabelos por conta do tratamento. Essa cena é muito forte. Tem outra, que é um sonho da Camila, ela sonha com um sangramento, eu lembro que tinha cara de filme de terror, que era muito assustadora.

Toda a fase da Camila doente para mim é muito forte. Primeiro porque eu era muito nova, segundo porque eu tinha tido pouco contato ou nenhum com pessoas com câncer. Não conhecia ninguém que tinha tido câncer na vida, nem da família, nem amigos. Então, eu tinha zero contato com a doença. Foi um choque ver a fragilidade humana através de uma doença e tendo que interpretar aquilo e interiorizar aquilo para poder fazer a cena. Todas as cenas a partir do momento que a Camila se descobre doente são muito fortes.

Você outro dia postou no Instagram que tem saudade de ficar careca. Rola mesmo essa saudade? É algo que você pensa?

Eu tenho muita saudade de ficar careca. Primeiro porque eu adorei. Até o dia que eu fiquei careca eu não me achava bonita. Eu era pouco vaidosa, fui criada no meio de meninos, nem espelho grande eu tinha. Eu lembro que o primeiro espelho que eu tive na minha vida, que eu comprei para me ver inteira, conferir a roupa, eu comprei na época de Mulheres Apaixonadas, depois da Camila. Quando eu raspei a cabeça, que eu me vi sem cabelos, eu comecei a me achar bonita. Eu não tinha uma percepção estética sobre mim e quando eu fiquei careca eu percebi que meu rosto ficou muito forte, comecei a me achar interessante. Foi careca que eu comecei a me curtir. É estranho, mas é verdade.

Essa cena, a música, acaba que vira trilha sonora até de brincadeiras na web até hoje. Você curte ver essa lembrança, curte ver as pessoas lembrando disso até hoje?

Eu adoro quando as pessoas me marcam, eu até reposto. Eu acho o máximo participar do imaginário das pessoas e ser lembrada até hoje em tantos momentos. É uma dadiva, é a cereja do bolo do trabalho como ator o de chegar na vida das pessoas, quando elas começam a lembrar de você na vida delas.

O que mudou na Carolina Dieckmann de 20 anos atrás?

Mudou muita coisa no que diz respeito ao amadurecimento, ao entendimento da vida pessoal. E a atriz acompanha esse amadurecimento. Quanto mais a gente amadurece mais a gente tem estofo, mais a gente tem arquivo para doar aos personagens. Mudamos muito através do amadurecimento, mas eu identifico sonhos e desejos muito parecidos, hábitos muito parecidos com 20 anos atrás. E eu acho que é assim com muita gente. Temos uma essência que nasce conosco e vamos adaptando essa essência para amadurecer e crescer com as coisas que acontecem na vida. Mas a essência mesmo, ela permanece. Eu me sinto muito diferente de 20 anos atrás, mas, ao mesmo tempo, muito parecida.

Como ficou a amizade com o elenco? Acontecem reencontros ou é difícil?

No nosso ofício reencontramos muitas pessoas em outros trabalhos. Já encontrei o Gianecchini, a Vera (Fisher), assim como a Giovanna (Antonelli) e a Deborah (Secco). Nos encontramos e reencontramos em outros bastidores ao longo da vida. Eu tenho muito carinho por todo mundo, mas a vida anda. Novela não é como faculdade que a gente depois se encontra e fica lembrando, não para mim, pelo menos. Vem um outro trabalho e aquilo vai se sobrepondo, as experiências vão se sobrepondo, o que fica mesmo é o carinho, a lembrança daquela época. Eu reencontrei algumas pessoas da época de Laços de Família em outros trabalhos e que são memórias mais recentes, porque aconteceram depois. Eu tenho amizade com muitas pessoas daquela época, mas não fica marcado como amigos de Laços de Família, e sim como amigos da profissão.

Fonte/Foto: globo.com