04/09/20 - 16:21:10

Tecido cardíaco produzido com nanopartícula de ouro pode ser alternativa para reduzir mortes por infarto, diz médica

Inspirar as pessoas a ampliar horizontes por meio do desenvolvimento e da transferência do conhecimento, de tecnologias, produtos e serviços desenvolvidos. Esta é a missão do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP) e, neste contexto, uma das ações promovidas para inspirar os colaboradores é a oferta de apoio para que estejam em constante atualização, e uma das formas como isto acontece é através do pós-doutoramento (pós-doc), que pode ser realizado no Brasil ou no exterior. Durante o pós-doc novas parcerias com instituições de pesquisa ou de ensino superior são firmadas, promovendo, também, o intercâmbio entre pesquisadores, ampliando as parcerias interinstitucionais e o processo de internacionalização do ITP.

E quem retornou a Sergipe após um ano de pós-doutoramento nos Estados Unidos foi a Dra. Patrícia Severino, pesquisadora do ITP, professora da Universidade Tiradentes e Bolsista de Produtividade em Pesquisa Nível 2 do CNPq que, no período de agosto de 2019 a agosto de 2020 esteve em Boston para realizar estudos complementares para a pesquisa: “Desenvolvimento e caracterização de modelo de tecido cardíaco empregando nanopartícula de ouro/Gelatina Metacrilada por tecnologia de impressão 3D”. Os estudos foram realizados em parceria com o Shin Laboratory, da Harvard Medical School, além do Brigham and Women’s Hospital, de Boston, sob a supervisão da Dra. Su Ryon Shin.

A pesquisa desenvolvida em parceria entre o Laboratório de Nanotecnologia e Nanomedicina do ITP (LNMed), do qual a Dra. Patrícia Severino é coordenadora, e o Shin Lab, é aplicada tanto para a seleção de novas drogas in vitro quanto para estudos referentes à regeneração de lesão cardíaca provocada por vários fatores, a exemplo do infarto agudo do miocárdio que, neste sentido, é a doença mais relevante e responsável por altos índices de óbito.

Para se ter ideia da importância da pesquisa para a regeneração tecidual do coração, dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia mostram que, no País, 14 milhões de pessoas são acometidas por doenças cardíacas, um problema considerado grave, pois, estas doenças, sendo a principal delas o infarto, são responsáveis por mais de 30% das mortes de brasileiros. A SBC estima o óbito de 380 mil pessoas a cada ano vítimas de problemas no coração.

As doenças cardiovasculares, afecções do coração e da circulação representam a principal causa de mortes no Brasil, sendo mais de 1.100 óbitos por dia, cerca de 46 por hora e um a cada 90 segundos. Ainda de acordo com a SBC as doenças cardiovasculares matam o dobro da quantidade de pessoas vítimas fatais de câncer (todos os tipos juntos), 2,3 vezes mais que causas externas (acidentes e violência), três vezes mais que doenças respiratórias e 6,5 mais que todas as infecções, incluindo a AIDS. Em Sergipe, a estimativa de óbitos preditos por doenças cardiovasculares para o ano de 2020 é de 3.549 casos, também de acordo com a SBC.

“A estratégia de engenharia de tecidos é cada vez mais estudada para desenvolver, em laboratório, tecidos cardíacos visando o estudo de novas terapias para tratar o problema ou a promoção da regeneração do órgão afetado. Até o momento estamos aprimorando o biomaterial e esperamos, em breve, ter um produto que auxilie tanto os testes in vivo quanto in vitro e que possa ser colocado para uso da sociedade”, esclareceu a Dra. Patrícia Severino. De acordo com a pesquisadora, o trabalho iniciado expandiu, o que fez com que novas parcerias na área de regeneração tecidual fossem firmadas e mais atividades planejadas.

“Nossa relação com a Harvard Medical School foi tão frutífera que convidamos para fazer parte das próximas etapas dos estudos a Dra. Juliana Cordeiro, pesquisadora do Laboratório de Biomateriais do ITP e a Dra. Sona Jain, professora da Unit. Além disso, também firmados parceria com a Massachusetts College of Pharmacy and Health Sciences, através do Dr. Ronny Prieffer, com quem estaremos trabalhando na área de câncer de pele”, informou a pesquisadora do ITP.

Segundo ela, o período de pós-doutoramento no Shin Lab foi o início de uma importante parceria entre o ITP, a Unit e a Harvard Medical School que, a partir de agora, trabalharão juntos no âmbito da graduação e da pós-graduação. “A interação de pesquisa continuará e o intercâmbio de alunos será iniciado após a pandemia”, comentou.

UM ANO DE SUPERAÇÃO

A Dra. Patrícia Severino confessou que o período que passou em Boston foi muito desafiador. Dentre os percalços superados estiveram o frio intenso que, durante boa parte do ano imprimiu temperaturas negativas e a ocorrência de neve, e a inesperada pandemia pelo novo coronavírus, situações que, segundo ela, não impediram que as atividades do pós-doutoramento fossem realizadas de maneira contínua e obtivessem resultados expressivos.

“Foi um ano bem produtivo, com a publicação de um artigo e um capítulo de livro em parceria com a Dra. Su Shin Ryon. Ademais, realizamos a submissão de um projeto junto à Fundação Lemann Brazil Research Fund e mantivemos foco para ampliar a interação. Produzimos 42 artigos científicos, nove capítulos de livros, procedemos a editoração de dois livros juntos a Elsevier (o primeiro sairá até dezembro deste ano) e depositamos seis patentes, produção possível graças à interação com dez países, o que ampliou a internacionalização do Grupo Tiradentes por meio do ITP e da Universidade Tiradentes”, enfatizou Dra. Patrícia Severino. No final do mês de agosto ela recebeu outra importante notícia: a de que o grupo teve um projeto aprovado junto à Universidade de Granada, na Espanha, e que será financiado pela Fundação Carolina.

Ainda como fruto deste segundo pós-doutoramento da professora Patrícia Severino nasceu a interação de pesquisa e desenvolvimento com as empresas brasileiras TRON (robótica educativa) e a Outlier, que teve como resultado o desenvolvimento e validação temporária, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), das máscaras Delfi-TRON, utilizadas no combate à pandemia da COVID-19 como alternativa às máscaras N95. Esta máscara contou, também, com a aprovação dos profissionais da saúde e pesquisadores tanto do Brasil quanto do exterior. Houve, também, o desenvolvimento de um respirador denominado Air-TRON, que está em validação junto à ANVISA.

A bagagem profissional da Dra. Patrícia Severino veio recheada de ainda mais aprendizagem sobre empreendedorismo inovador, pois, mensalmente, participou das atividades do Pub Boston para discutir o trabalho de cientistas inovadores e artistas brasileiros na cidade norte-americana e, semanalmente, estava nos eventos do Venture Café, que tiveram como objetivo difundir a cultura empreendedora e inovadora. Os encontros ocorriam no Centro de Inovação do MIT para gerar, lapidar ideias, estimular o empreendedorismo local, inspirar pessoas, repensar a educação, fortalecer e aperfeiçoar o mercado regional, e colaborar com o futuro das profissões.

Dra. Patrícia Severino também participou ativamente da MIT Women’s League, quando pôde trocar experiências sobre liderança e empreendedorismo com profissionais de diversos países, dentre eles China, Índia, Japão, Colômbia, Coreia do Sul e México. “Foi um ano cheio de desafios pessoais e profissionais que conseguiram ser superados com muita persistência, foco e amor pela ciência”, concluiu a pesquisadora.

Por Andréa Moura