De MALU DELGADO, Publicada na Folha de São Paulo deste domingo (07)
A maior inquietação daqueles que hoje completam três décadas dentro do PT parece ser qual papel o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, principal referência da sigla, terá nas instâncias partidárias ao término de seu segundo mandato.
É Lula quem traçará o próprio rumo, repetem dez de cada dez petistas. Porém, os que conhecem o presidente na intimidade e o acompanham desde a fundação do PT não têm dúvida: ele não almeja o posto de oráculo do partido nem deverá se propor a ser a sombra de um eventual governo de Dilma Rousseff, caso vença a eleição.
As homenagens e os títulos internacionais recém-concedidos a Lula, sobretudo o de estadista global no Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, o coloca num patamar que os petistas definem hoje como o de militante internacional.
Não cabe a um ex-presidente agir como chefe de partido, e Lula tem dito que quer colaborar em atuações fora do Brasil, confidenciou um petista próximo ao presidente.
Para o governador de Sergipe, Marcelo Déda, companheiro histórico do presidente, Lula terá que decidir se fará uma militância mais ampla que o PT ou uma militância partidária.
E o próprio Déda responde: Lula é hoje um estadista que não é do mainstream (comum, ao alcance do público etc), mas com o pé no Terceiro Mundo. Abre-se aí um novo campo de atuação. O acúmulo que terá como chefe de Estado o coloca numa situação em que não poderemos ser egoístas a ponto de querermos reduzi-lo ao PT.
A integrantes do primeiro escalão de seu entorno, Lula revelou que além de uma atuação internacional pretende também retomar viagens pelo interior do Brasil. Faria isso por pelo menos seis meses.
O que poderia ser entendido como uma nova versão da Caravana da Cidadania -promovida no Brasil por Lula em 1993-, parece ser a intenção de fazer caravanas por uma nova cidadania, definem interlocutores do presidente.
Na visão de Lula, seu governo promoveu uma enorme mobilidade social, e essa nova massa de cidadãos lentamente incorporada ao sistema social e ao mercado de consumo permanece alijada das esferas políticas. Segundo um ministro, Lula quer ir ao encontro dessas pessoas para discutir política, mas não deve fazer isso a partir nem por dentro do PT. O presidente deverá fazer essas viagens sem corte partidário, arriscou outro auxiliar de Lula.
Lula diz que voltará a São Bernardo do Campo assim que deixar a Presidência. Mas a vida do fundador do PT, 30 anos depois, não cabe mais no reduto sindicalista do ABC.