Aracaju, 26 de fevereiro de 2024

O Natal Espetáculo, escreve Luiz Eduardo Oliveira

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Luiz Eduardo Oliveira*

Um natal iluminado é, sem dúvida, muito bonito. Árvores, brinquedos, bolas coloridas, luzes que iluminam praças, ruas e prédios e atrações musicais ou teatrais dão um sentido especial a esse momento tão importante para a história da humanidade. Durante algum tempo, o homenageado e ator principal foi Jesus e mesmo que haja tantas interpretações quanto aos seus ensinamentos, o natal sempre foi o elo que unia as religiões ocidentais.

Desde a minha infância, durante os dias da festa, em especial os dias 24 e 25 de dezembro, sempre foram esperados, seja pela possibilidade de ganhar um brinquedo ou mesmo para ter uma refeição especial e mais farta. Por certo que sempre houve famílias paupérrimas, pobres, ricas e as que possuíam um nível de vida mediano, porém em todas elas, o natal ganhava um sentido diferente e aparentemente mais humano.

Lembro-me dos nossos natais e dos presentinhos que ganhávamos, da expectativa diferente “no ar”, do envolvimento da sociedade e apesar de não termos discursos, falas, momentos para reflexão em família, ainda assim era um momento esperado com muita ansiedade.

O parque Teófilo Dantas, conhecido simplesmente como o parque, abrigou, durante toda a minha infância, o carrossel do Tobias, o bate-bate, o tira-prosa, os pula-pulas, o trem fantasma, além dos tradicionais e imprescindíveis barquinhos e rodas gigantes. Havia, também, o lança argolas, os tiros ao alvo e locais de jogos com roletas que brilhavam, ao som de músicas atemporais. O “parque” era cercado por comidas e guloseimas com os mais variados cheiros que subiam pelas narinas, vários carrinhos de pipoca, normais ou coloridas, inúmeros tabuleiros de cachorros-quentes, expostos de maneira criativa, tábuas de algodão doce, pirulitos, além de bolas de assopro com formas diferentes e ainda mais atrativas. Com pouco dinheiro, íamos com direito a um ou dois itens, no máximo, às vezes um lanche, mas só pelo fato de estar na Catedral Metropolitana de Aracaju, durante aquele período, já era um afago. Um período que ficou na memória, com poucos momentos de reflexão sobre o verdadeiro sentido do natal, mas que, de certa forma, unia a nossa numerosa família. Algumas vezes, recebíamos alguns parentes e a tão esperada tia e madrinha, pois invariavelmente recebia “um dinheirinho”, que de pronto era utilizado no “parque”.

Crescemos e durante a minha adolescência, mais envolvido nos movimentos da igreja, o natal ganhou um sentido mais espiritual e mais voltado para o aniversariante, Jesus. Minha família, uma linhagem numerosa, com vários vieses religiosos, sempre soube respeitar as “diferenças” e durante o período natalino colocava a todos no mesmo jantar, à meia noite. As tradições do presente, do papai Noel, dos pedidos nunca foram incentivadas em nosso núcleo familiar, mas mesmo assim celebrávamos o nascimento do menino Jesus.

Atualmente, já adulto, muitas recordações chegam à memória e ao observar nossa cidade tão iluminada, o nosso parque tão colorido fico a pensar, sem saudosismo, naqueles momentos da minha infância e nas várias formas de aproveitar o brilho dessa festa.

Circulando pelos bairros da minha cidade, nesse período, fico a imaginar na ceia do natal em famílias que residem no Coqueiral, Japaozinho (Ponta da Asa), América, Paraíso do Sul, Bugio, Santos Dumont, 18 do Forte, Santa Maria, e na possibilidade que essas famílias têm em usufruir de tanta iluminação exposta no centro da cidade, no parque da sementeira e na atalaia.

O som que tenho ouvido por esses bairros, nem de longe lembra o período natalino, e nesses espaços não são tocadas canções que remetam às lições pregadas por Jesus e, em alguns, sequer há iluminação especial.

Sim, muita coisa mudou, mas temos que pensar no crescimento de nossa sociedade aracajuana como um todo. O natal, o sentido do natal, deveria ser disponibilizado às famílias não como um período de receber cestas natalinas ou brinquedos arrecadados, mas como um momento para refletir nos ensinamentos do mestre, nas formas de romper ciclos de vulnerabilidades perversas. Durante esse período, as famílias continuam desesperadas por tratamentos em saúde, física ou mental, anseiam por segurança e pela possibilidade de continuar sentando nas calçadas sem ameaças de não celebrarem o ano novo. Enfim, as famílias anseiam por reunir seus filhos, parentes e amigos nos mais variados locais de nossa Aracaju.

Um natal iluminado é bem-vindo, só lembrando que luz demais, cega e que Jesus preferiu um local humilde e simples para vir ao mundo.

*Luiz Eduardo Oliveira é Doutor em Saúde e Ambiente

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