Projeto Mãos e Marés inicia atividades em seis municípios sergipanos unindo ciência, extensão universitária e saberes tradicionais para promover segurança alimentar, protagonismo feminino e fortalecimento da pesca artesanal
Entre manguezais, rios e marés, milhares de mulheres transformam diariamente o trabalho da mariscagem em alimento, renda e tradição para suas comunidades. É para caminhar ao lado dessas trabalhadoras, reconhecer seus saberes e construir soluções coletivas que nasce o Projeto Mãos e Marés – Extensão Participativa para Fortalecimento da Segurança Alimentar e do Protagonismo das Comunidades Marisqueiras em Sergipe, que inicia oficialmente suas atividades no estado.
O projeto é uma realização da Universidade Federal de Sergipe (UFS) por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), a Secretaria-Geral da Presidência da República (SGPR) e o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). Ele integra o Programa Alimento Seguro (PAS), iniciativa nacional criada para promover a produção e a oferta de alimentos seguros em todas as etapas da cadeia produtiva, do campo ao consumidor.
Coordenada pelo professor Carlos Alexandre Borges Garcia, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), o Mãos e Marés será desenvolvido em seis municípios do território Sul Sergipano, promovendo ações de pesquisa, extensão universitária e participação social voltadas ao fortalecimento da pesca artesanal, da segurança alimentar e nutricional e da organização das comunidades marisqueiras.
A iniciativa surge diante da necessidade de ampliar o conhecimento sobre a realidade das comunidades marisqueiras sergipanas, responsáveis por uma atividade essencial para a segurança alimentar, a economia local e a preservação de conhecimentos tradicionais. Apesar dessa importância, o setor ainda convive com desafios como a invisibilidade social, a ausência de informações sistematizadas, a vulnerabilidade socioeconômica e a dificuldade de acesso a políticas públicas.
Segundo o professor Carlos Alexandre, o projeto nasce do entendimento de que a produção de conhecimento precisa estar conectada às pessoas e aos territórios. “O Mãos e Marés parte da convicção de que a universidade tem um papel fundamental na construção de soluções ao lado das comunidades. Não se trata apenas de pesquisar a realidade das marisqueiras, mas de construir conhecimento com elas, reconhecendo seus saberes, fortalecendo sua organização e contribuindo para ampliar sua participação na formulação de políticas públicas”, destacou.
Na prática, o Mãos e Marés pretende aproximar a universidade das comunidades para compreender como vivem e trabalham as marisqueiras, identificar os principais desafios enfrentados por elas e construir, de forma participativa, caminhos para fortalecer a atividade. O projeto vai realizar visitas de campo, rodas de conversa, oficinas, cursos de formação, pesquisas e encontros com lideranças comunitárias, promovendo um intercâmbio permanente entre o conhecimento científico e os saberes tradicionais das comunidades.
Outro eixo importante será a produção de informações qualificadas sobre a mariscagem em Sergipe. A equipe irá mapear aspectos sociais, econômicos, ambientais e culturais relacionados à atividade, produzindo dados que poderão subsidiar políticas públicas voltadas à pesca artesanal, à segurança alimentar, à geração de renda, à proteção dos manguezais e à valorização do trabalho desenvolvido, sobretudo, pelas mulheres marisqueiras.
Além disso, o projeto buscará fortalecer a organização social das comunidades, estimulando a participação das marisqueiras em espaços de decisão, ampliando o diálogo com instituições públicas e incentivando iniciativas que contribuam para o desenvolvimento sustentável dos territórios costeiros. A proposta é fazer com que o conhecimento produzido durante o projeto gere impactos concretos na vida das comunidades, fortalecendo sua autonomia e ampliando sua capacidade de reivindicar direitos.
Para o químico e pesquisador do projeto, Silvânio Silvério Lopes da Costa, a extensão universitária só cumpre seu papel quando estabelece uma relação de troca entre a academia e a sociedade. “As marisqueiras acumulam conhecimentos construídos ao longo de gerações sobre o manguezal, os ciclos da natureza e a produção de alimentos. O projeto reconhece esse patrimônio e busca aproximar o conhecimento científico desses saberes tradicionais para fortalecer as comunidades e promover transformações concretas na vida das pessoas”, avaliou.
As ações serão realizadas nos municípios de Estância, Indiaroba, Santa Luzia do Itanhy, Itaporanga d’Ajuda, Umbaúba e Arauá, todos da região sul do estado, onde a mariscagem representa uma importante fonte de renda para centenas de famílias e tem papel central na economia e na cultura local.
Além de fortalecer a organização comunitária, o Mãos e Marés pretende produzir informações qualificadas sobre a pesca artesanal em Sergipe, contribuindo para a elaboração de políticas públicas e para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente aqueles relacionados à erradicação da pobreza, igualdade de gênero, segurança alimentar, trabalho decente e conservação dos ecossistemas costeiros.
Para Jeisikailany Santos Peixoto Oliveira, engenheira de pesca e pesquisadora do projeto, a iniciativa também consolida uma trajetória da Universidade Federal de Sergipe junto às comunidades pesqueiras, ampliando ações de pesquisa e extensão que valorizam a pesca artesanal como atividade estratégica para o desenvolvimento regional e para a preservação do patrimônio cultural sergipano.
“Quando fortalecemos as comunidades marisqueiras, fortalecemos também a segurança alimentar, a conservação dos nossos ecossistemas e a identidade cultural de Sergipe. O Mãos e Marés nasce para construir esse caminho de forma coletiva, com diálogo, participação e compromisso social”, apontou a pesquisadora.
Sobre o PAS
Desenvolvido a partir de uma parceria entre instituições como SENAI, SEBRAE e Embrapa, o programa dissemina a adoção de Boas Práticas Agrícolas (BPA), Boas Práticas de Fabricação e os princípios da Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC), contribuindo para prevenir riscos físicos, químicos e biológicos que possam comprometer a saúde da população. Além de elevar a qualidade dos alimentos, o PAS fortalece a competitividade dos produtores, amplia o acesso a mercados mais exigentes, incentiva a sustentabilidade da produção e promove maior confiança dos consumidores nos alimentos que chegam à mesa.
Texto: Débora Zoe
