O mês de junho chegou trazendo em Sergipe celebrações juninas ricas em cultura popular, reacendendo tradições, comidas típicas e símbolos folclóricos. No estado, as principais manifestações folclóricas existentes nesta época do ano são: o pisa-pólvora, bacamarte, samba de coco, samba de pareia e as tradicionais quadrilhas juninas.
No município de Laranjeiras, mais especificamente no povoado Mussuca, o samba de pareia tem mais de 300 anos de existência e resiste ao tempo. Dona Nadir de 76 anos, cantora e compositora sergipana, mestre quilombola de cultura popular do povoado Mussuca, em Laranjeiras (SE), é uma das guardiãs dessa tradição centenária em Sergipe.
Mais conhecida como Nadir da Mussuca, ela começou a participar do samba de pareia com apenas 10 anos de idade, levada por seu pai. Apesar de muita coisa ter mudado de lá para cá, se depender de Dona Nadir, o samba de pareia não deixará de existir. “Foi passando de geração para geração e é um grupo que não tem tempo de acabar. O povo da Mussuca é nascido e criado dentro do samba de pareia e tem que ter nos festejos juninos todos os anos”, afirmou, ao acrescentar que seu grupo já se apresentou em vários estados do país e até em vários países, a fim de difundir a tradição.
De acordo com ela, o samba de pareia surgiu em Sergipe ainda no tempo da escravidão, por meio de escravos que fugiam das senzalas de grandes fazendas e iam se abrigar na Mussuca. No local, o grupo de mulheres é liderado por Dona Nadir e tem como característica principal a coreografia marcada pela pisada dos tamancos, acompanhados com chocalhos, cuíca e tambores (tocados apenas pelos homens da comunidade). Nas vestimentas, os integrantes usam roupas coloridas de chita, acessórios e chapéus enfeitados, garantindo cor e alegria nas apresentações do período junino.
Dona Carmélia Bispo dos Santos é cunhada de Nadir da Mussuca e também faz parte do grupo há muitos anos. Ela reforça também a importância da manifestação popular na comunidade. “O samba de pareia faz parte da minha vida com muito amor, garra e animação. Desde pequena a gente lá em casa se arrumava na noite de São João para dançar e a gente sambava até de manhã. Para a gente, representa a união do povo da Mussuca”, ressaltou.
Contexto histórico
De acordo com o professor e historiador Fernando Aguiar, as culturas populares brasileiras foram construídas e constituídas por meio da contribuição de vários povos que aqui estiveram, como os povos originários, africanos em diáspora, povos europeus, os ibéricos, e também, outros agrupamentos. “E isso é muito interessante porque, se a gente entender que o Brasil é ocupado a partir de um processo de transição do medievalismo europeu-ocidental para uma idade moderna, há uma forte influência das ideias medievalescas. E, no contexto medieval, o mundo cristão católico incorporou várias práticas pagãs”, explicou.
O fato das tradições juninas serem mais fortes no Nordeste, o historiador explica que se deve ao fato de ter sido a região que foi primeiro colonizada pelos europeus o que resultou na mistura de tradições e culturas dos povos originários e logo após, do povo africano. Segundo Fernando, aqui no Nordeste, os povos originários cultivavam o milho e a mandioca. Tempos depois, com o cultivo da cana de açúcar por intermédio do trabalho escravo dos povos africanos, surgiu a cachaça, bebida comum nas festas juninas, como forma de esquentar no tempo frio. “As heranças culturais desses grupos vão se fundir e dar origem a tudo isso que temos hoje. Então, no Nordeste, a celebração é muito mais intensa, porque coincide principalmente com a colheita do milho, do amendoim, da mandioca”, relatou.
Quadrilha junina
A quadrilha junina é um estilo de dança folclórica coletiva muito popular no Brasil e tem origem europeia-francesa. Passou por adaptações à cultura brasileira, inclusive nas suas vestimentas, adequando-se à realidade do povo do sertão nordestino, como destaca Fernando Aguiar, incorporando vários elementos, como os trajes do cangaço e substituição do tecido brocado pela chita.
E dentro desse contexto histórico elementos como a dança, música e a fogueira fazem parte dessa celebração junina. O forró e o coco, por exemplo, apresentam influências africanas em suas melodias. A coreografia da quadrilha junina tem origem que remete às danças africanas. Os movimentos sincronizados e a utilização de elementos como fitas e chapéus fazem referência às expressões culturais e religiosas dos povos africanos. “No caso da fogueira e da pólvora, por exemplo, os nossos antepassados usavam para celebrar a colheita do milho. Além disso, tinham o hábito de dançar com movimentos rápidos com pisadas fortes para despertar o chão para colheita e anunciar o céu com fogos. E tudo isso, ao longo dos anos foi se reinventando, até chegar ao formato de celebração junina atual”, acrescentou o historiador.
Valorização
A manutenção dessas tradições e a valorização das manifestações culturais são priorizadas na programação junina realizada pelo Governo de Sergipe. Grupos folclóricos, quadrilhas juninas e trios pé de serra compõem grande parte das atrações que têm se apresentado na Vila do Forró, na Orla da Atalaia, e também na Rua São João, onde todas as segundas-feiras acontece a Segundona do Turista. Além deles, dois tradicionais concursos de quadrilhas juninas são realizados pelo Governo do Estado, nos espaços culturais Gonzagão e Centro de Criatividade.
Vários Editais foram realizados pela Funcap para a contratação dos artistas que se apresentam na programação junina de Sergipe. Na Vila do Forró são 300 atrações sergipanas, das quais 60 são trios pé de serra e tradicionais, 60 apresentações de quadrilhas juninas, 30 duplas de grupos folclóricos, 30 grupos de artes cênicas, além de filarmônicas, bandas e artistas solo.
Nos concursos de quadrilha, 18 juninas participaram de cada um deles, tendo o governo investido R$ 180 mil para assegurar a participação delas. Além disso, em 2024, o valor do prêmio pago às campeãs foi aumentado, passando a receber R$ 20 mil a primeira colocada, R$ 12 mil a segunda, R$ 8 mil a terceira, R$ 3 mil a quarta e R$ 2 mil a quinta.
País do Forró
Durante 60 dias, o clima junino tomará conta do estado, fortalecendo o turismo, a cultura popular e aquecendo a economia em vários setores envolvidos na realização dos eventos. A programação do Arraiá do Povo e Vila do Forró é uma realização do Governo de Sergipe, por meio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap), Secretaria Especial da Comunicação (Secom), Secretaria de Estado do Turismo (Setur) e Banese, com apoio da Energisa, Netiz e Shopping Jardins, e patrocínio da Eneva, Pisolar, Deso, Maratá, GBarbosa e Serviço Social do Comércio (Sesc).
Foto: Isis Oliveira