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O pacto sino-russo humilha o ocidente e corrói a democracia

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*Por Paulo Márcio

A tese que passarei a expor, de modo sucinto, parece, à primeira vista, paradoxal. Além do que, rende ensejo a toda sorte de ataques, seja em razão da incompreensão – esta filha da ignorância -, seja por conta da intolerância que espraiou-se como peste pelas democracias ocidentais – intolerância essa que por vezes nos sufoca, mas que, por outro lado, nos impele a elevar o pensamento a fim de descobrir se de fato marchamos rumo ao colapso civilizatório e se há, afinal, alguma maneira de impedi-lo.

Há pouco mais de uma década, mal engatinhávamos no mundo digital quando, atônitos, assistimos às nascentes mídias sociais (Facebook, Twitter e YouTube) serem utilizadas para derrubar ditaduras em países do Oriente Médio e do Norte da África, no movimento que ficou conhecido mundialmente como Primavera Árabe, cujo estopim foram as tentativas de repressão e censura na Internet levadas a efeito pelos Estados.

Na base daqueles movimentos revolucionários, todavia, estavam a falta de liberdade, as péssimas condições de vida da população, o desemprego em alta e a corrupção sistêmica, herança dos regimes nacionalistas árabes que ascenderam ao poder entre as décadas de 1950 e 1970.

Com a derrocada do comunismo no leste europeu e o consequente fim da Guerra Fria, o anseio por democracia, liberdade e melhores condições de vida rapidamente se espalhou entre a juventude do mundo árabe. O maior acesso a informações, proporcionado pelo advento da Internet, culminou numa insatisfação que, impulsionada pelas redes sociais, tornou-se irrefreável.

Entretanto, a lição de que a Internet e as redes sociais podem servir de catalisador às insatisfações coletivas e, cedo ou tarde, levar à derrubada de regimes autoritários, fez com que tiranos e protoditadores passassem rapidamente a utilizar essas ferramentas em favor de seus regimes, de modo a seguir subjugando seu próprio povo e espalhando seus tentáculos sobre territórios alheios e povos soberanos.

A Coreia do Norte, país mais fechado do mundo, continua mergulhada em trevas,  ao passo que Cuba, após experimentar uma suave brisa de mudança em 2021, rapidamente voltou à sua triste realidade: isolamento, pobreza, escassez de alimentos e falta de liberdade. Entre os dois países perdidos na névoa da triste utopia imposta aos povos tiranizados, um dramático ponto em comum: a existência de um severo controle exercido pelo Estado no acesso à Internet e às redes sociais.

Mas vem da China e da Rússia, não por acaso, o maior exemplo de como a Internet em geral e as redes sociais em particular transformaram-se em armas poderosíssimas na atual disputa geopolítica, assumindo, às vezes com incomparável vantagem, o lugar antes ocupado pelos arsenais nucleares.

Enquanto Moscou e Pequim abeiram-se da Ucrânia e Taiwan, respectivamente, aguardando o momento oportuno de fincar suas garras sobre os cobiçados alvos, o mundo ocidental perde tempo e energia em discussões ideológicas que, embora tenham sua importância, não servem a outro propósito na atual conjuntura senão dividir a sociedade em polos irreconciliáveis.

Assim, enquanto o ocidente digladia-se entre liberais e conservadores – ou progressistas e liberais, segundo a terminologia em voga em nosso país -, chineses e russos, que sufocam no nascedouro o direito de defender qualquer ideologia que destoe minimamente daquela imposta pelo Estado, aproveitam-se da nossa babel político-ideológica para mudar a configuração geopolítica em prol dos seus interesses nacionais.

O mais irônico em tudo isso é que, na guerra ideológica em curso, a intelligentsia sino-russa inunda-nos com tecnologias e conteúdos que corroem silenciosamente as bases do nosso modelo democrático e civilizacional, fazendo surgir, paralelamente, uma sociedade anárquica que não reconhece a autoridade das instituições, despreza o pluralismo de ideias e flerta com doutrinas autoritárias com que se afina.

Assim, se for preciso manipular as eleições de uma potência adversária para eleger alguém que personifique o terror aos olhos de metade dos cidadãos, o Kremlin não hesita. Seu propósito é aprofundar as divisões e contradições internas, transformando fissuras em abismos intransponíveis. Haja vista que, sem referenciais e qualquer possibilidade de consenso em torno de temas relevantes, até o mais poderoso dos países fica prostrado diante de uma questão que demanda uma unidade nacional impossível de se obter.

No afã de explicar esse vácuo nunca visto desde a ascensão dos Estados Unidos ao patamar de potência planetária, analistas de vários matizes afirmam que o povo norte-americano não quer mais financiar guerras alheias, que o tesouro dos EEUU não mais suporta os gastos de uma intervenção militar duradoura ou, simplesmente, que não há o que fazer para conter o avanço da Rússia e da China sem o risco de um novo conflito mundial. Então, por exemplo, simplesmente abandona-se à própria sorte o povo afegão, permitindo que os fanáticos talibãs usem e abusem da Sharia em sua sanha assassina, sob o beneplácito dos impassíveis Vladimir Putin e Xi Jinping.

Se nada for feito, em pouco tempo Ucrânia e Taiwan serão anexados a seus poderosos vizinhos. E como o exemplo arrasta, não tardará, a Venezuela também invadirá a Guiana para anexar o Essequibo, com apoio econômico e militar da Rússia. Movimentos semelhantes eclodirão em outras partes do mundo, sob os mais variados pretextos.

Enquanto isso, nós continuaremos a politizar tudo que for possível, em nossa guerra virtual insana com reflexos na realidade, desde a descriminalização do aborto à obrigatoriedade da vacina, passando, evidentemente, pela legalização do comércio de drogas e a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Um dia – amanhã, quem sabe? -, “ódios aplacados, temores abrandados, será pleno”… ou demasiadamente tarde.

*Paulo Márcio Ramos Cruz é delegado de policia

 

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