No último domingo, 5, a cidade de Laranjeiras deu início ao Encontro Cultural com a Coroação da Rainha das Taieiras na Igreja de São Benedito.
O evento é realizado pela Prefeitura de Laranjeiras e conta com o apoio do Governo do Estado, por meio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap). Até o dia 12 de janeiro, o encontro terá uma programação diversificada dedicada às tradições culturais e folclóricas.
Iniciado em 1975, o Encontro Cultural é reconhecido como um dos principais encontros do Nordeste, ofercendo uma imersão na riqueza das manifestações artísticas, na história e nos grupos seculares que preservam o patrimônio cultural do município.
O ritual da Coração das Taieiras, geralmente, ocorre na segunda semana de janeiro, porém, este ano, ele deu início ao Encontro Cultural de Laranjeiras, em razão do calendário litúrgico da igreja católica. Ápice do encontro, a coroação ocorreu após a missa, quando o padre tirou a coroa da imagem de Nossa Senhora do Rosário e a colocou na cabeça da Rainha das Taieiras, assim a coroando. Depois do rito, ocorreu a louvação dos grupos mais antigos, o Cacumbi do Mestre Deca, o Reisado de Lalinha, as Taieiras e as Chegança do Almirante Barroso e do Almirante Tamandaré.
A Taeira, iniciada no século XVIII, se configura como um dos primeiros grupos folclóricos de Laranjeiras e mantém até hoje a sua originalidade. É um grupo de folguedo que tem como característica o louvor a São Benedito e a Nossa Senhora do Rosário. O seu repertório é formado basicamente por cânticos religiosos, não desprezando também o profano.
Integrante das Taieiras há 8 anos, a estudante Lorena Aragão afirma que esse é um momento marcante. “A gente vem pra louvar a São Benedito e a Nossa Senhora do Rosário e pra coroar nossa rainha e antes desse dia a gente tem toda uma preparação, pra hoje vim coroar e louvar. Também passamos nas casas, louvando e dançando e as pessoas nos dão lanche. Eu acho muito massa fazer parte das Taieiras, porque é uma coisa que foi passada da minha mãe pra mim. Ela era da Taieira quando era mais nova, e eu sou agora, e quero que minhas filhas, meus filhos também sejam, porque é uma coisa que é muito bonita, você conhecer um pouco da história, de algo que é tão importante. Acho que a gente não pode deixar isso se perder, porque Laranjeiras é uma cidade muito da cultura, desde sempre”, concluiu.
A historiadora Maria da Conceição Bezerra falou sobre a importância desse ritual. “Celebrar a coroação das rainhas de Taieiras no dia da epifania do Senhor, que é popularmente conhecido como Dia de Reis em Laranjeiras, é sempre rememorar uma história que é e foi construída e protagonizada, hoje, pelos africanos e pelos descendentes dos africanos. É lembrar dessa história que é marcada assim pela escravização dos africanos e dos seus descendentes, mas que é uma história muito bonita da construção e da celebração de uma cultura que é negra, uma cultura muito forte, que a continuidade é dada pelo povo negro. Pra mim, é uma alegria, celebrar São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, uma festa secular, que forma identidades, não só em Laranjeiras, mas em Sergipe como todo”, finalizou.
O professor de sociologia Bruno Santana é laranjeirense e contou que, para ele, a Coroação das Taieiras abrir o Encontro Cultural é demarcar o que a cidade tem de mais identitário “Celebrar esses grupos, a Taieira, toda a simbologia que isso envolve nesse lugar, nessa igreja, nesse território, com toda a história que tem pra ser contada, é realmente celebrar a nossa identidade da forma mais orgânica e forte possível. Acho que é um motivo de orgulho, na verdade. O Encontro Cultural sempre foi pra gente um momento de orgulho, de celebração, de diversão, de troca”, afirmou.
Gabriel Lourenço, secretário de igualdade racial do município de Laranjeiras, explicou a representatividade dessa abertura. “O encontro cultural, esse ano, começa com o ápice central, que é a Festa de Reis com a coroação da Rainha das Taieiras e a louvação dos grupos folclóricos. A coroação da rainha das Taieiras, que une o profano com o sagrado, onde nós louvamos os reis e os próprios grupos, as manifestações populares, louvam a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito na igreja dos pretos. Esse é o ápice que move o que chamamos de encontro cultural, que é o encontro de culturas, as culturas de massas. A unificação dessa pluralidade cultural que nós temos faz com que Laranjeiras cresça e a extensão dos seus 19 grupos folclóricos e os seus 6 grupos parafolclóricos permite essa grandiosidade que é o encontro cultural”, detalhou.
Para o assessor da presidência da Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap), Páscoa Maynard, Laranjeiras é um tesouro a ser cada vez mais explorado. “Laranjeiras tem um tesouro fantástico, maravilhoso, que me deixa muito impressionado e pode ser ainda mais explorado. O Encontro Cultural traz esse tesouro à tona, mostra um pouco do que é essa maravilha que é a nossa cultura popular, nossos brincantes e a importância do encontro nesse sentido é fundamental, porque a gente precisa se conhecer mais, conhecer as nossas raízes artísticas e culturais”, explicou.
Simpósio do Encontro Cultural de Laranjeiras
Dentre a programação, haverá a 50ª edição do Simpósio do Encontro Cultural, um dos maiores eventos culturais do país, que acontece de 8 a 11 de janeiro. O marco dos 50 anos será conduzido pelo tema ‘Isso tudo é Louvor, Isso tudo é Louvar’, uma homenagem ao cântico do Grupo Folclórico Taieiras de Bilina, reforçando o valor da cultura e a trajetória do evento ao longo de suas cinco décadas.
O Simpósio também prestará homenagem a cinco figuras importantes que contribuíram para a preservação e valorização da cultura laranjeirense: Zé Sobral e Luiz Antônio Barreto, responsáveis pela realização do primeiro Encontro Cultural, em 1975, e as mestras Bilina, Lourdes e Bárbara, lideranças das Taieiras, manifestação sergipana formada por mulheres. As medalhas de reconhecimento serão entregues durante a abertura do evento, no dia 8 de janeiro.
Foto : Ascom/ Funcap